E um belo dia…

Por Fernanda Favaro*

Ok, você chegou até aqui e ainda está se perguntando: o que é o Maternativa?

Bom, vamos te contar tudo a partir de hoje, mas antes disso, um aviso: essa história, embora cheia de surpresas e descobertas maravilhosas, não tem nada de romântica.
As mulheres que aqui estão, apresentando seus produtos, serviços, parcerias e ideias, aprendendo e construindo juntas uma nova forma de ocupar a economia, o estão fazendo movidas quase sempre por uma questão nada fácil, fruto de um Gênesis bem perverso: “E agora?”

Explico.

No princípio, e simplificando bastante a coisa toda, era o: “Chefe, tem dois minutos?” Se você é trabalhadora e já ficou grávida, sabe do que eu tô falando. Um dia você chega prx elx e anuncia, entre um misto de felicidade e ansiedade: “Então, né… é isso!”. Só que, pra sua surpresa, elx levanta as sobrancelhas. Faz cara de pasmadx ou de enterro. Cruza a linha do respeito e solta uma piadinha infame qualquer. E você sabe que aquele inferno será o seu dia-a-dia nos próximos nove meses. Comigo foi um pouco assim.

Depois, era a “conta”. A “conta” é aquele cálculo que te leva a concluir que o seu salário simplesmente não banca os gastos com seu filhx e, principalmente, o ônus de deixá-lx aos cuidados de outrem. Você se pega no chuveiro pensando: “Hum, ganhando isso, menos fraldas, menos roupas, menos creche, menos dor de terceirizá-lo das 7 às 19… Opa! Vai faltar salário e sobrar aperto no coração.” Então, você percebe que seu trabalho não é a última guaraná do deserto – na realidade, tá bem longe disso e você bem que sabia, mas agora a coisa grita na sua cara. Você descobre que ganha menos que seu colega homem que faz a mesma coisa que você, ou até menos do que você. E, principalmente, você sente que ninguém, mas ninguém mesmo, está nem aí pra nada disso.

(Nota: eu sei que esse é um classe média sofre da coisa. A gente sabe que, quanto mais empobrecida e desprotegida socialmente, menos poder de escolha tem uma mãe. Isso sem falar nos nossos machismo e racismo estruturais, que exclui e vulnerabiliza acima de tudo as mulheres negras. Também é fato que já existem ambientes de trabalho onde questões básicas de igualdade não são mais tratadas como privilégio ou, pior, “favor”. O causo é que não deveria ser assim para nenhuma de nós, e é por isso que o papel das mulheres “com escolha” nesta discussão também é fundamental para a luta de todas as mulheres brasileiras por uma maternidade plena, acolhida, respeitada e empoderada).

Em seguida, vem a ”volta”, mais conhecida como retorno da licença-maternidade. Neste momento, de duas, uma: ou você é mandada embora baseado em alguma desculpa de reestrururação qualquer da firma, ou faz o famoso “acordo” para ser dispensada. Caso sobreviva, é muito possível que seja removida das suas antigas atribuições ou sabotada de diferentes maneiras. Num cenário positivo, terá que comer uma certa grama todo dia pra ser aceita como um ser humano que tem, entre outras atribuições na vida, a fundamental tarefa de criar bem um outro ser humano. O qual (que interessante!) fará parte ativa desta mesma sociedade “doentia” que todo mundo adora criticar. Sendo assim, você precisa cometer o crime de pedir dispensa do trabalho pra levar seu filhx no médico, cuidar de sua doença, participar da reunião na escola, estar mais presente de vez em quando…

Por fim, chega o dia do “espelho”. É quando você se olha em um, bem longamente, e exerga ali uma pessoa cheia de medos, questionamentos (pelas coisas como elas são para nós, mulheres e mães), desejos, e uma enorme tarefa pela frente: criar umx filhx pro mundo. Que tá ali, te dizendo com aqueles olhões imensos: “Sim, mãe.” Sim, está na hora de tirar aquele seu talento, habilidade ou interesse da manga, do armário, do papel, e transformá-lo em um novo caminho pra você. A sua empresa. A sua marca. O produto do seu trabalho mais revolucionário: aquele que nasce do aperreio e da necessidade, mas também do sonho, da ousadia e do imenso amor que você sente por aquele novo ser humano. “O amor que move o céu e todas as estrelas…”

E o resto? O resto são as histórias que esse blog vai te contar, as reflexões e provocações que ele te proporcionará e as conexões que ele te convidará a fazer. Histórias de aprender, de trocar, de crescer junto e de fazer a economia, essa nova economia que nasce de centenas de talentos femininos inquietos, reverberar. Somos milhares de mulheres que saíram do mercado tradicional de trabalho para nos lançarmos à aventura do empreendedorismo materno colaborativo. À aventura deste novo mundo que está nascendo por toda parte. Estamos em diferentes fases de desenvolvimento de nossos projetos, mas temos algo que nos une e nos fortalece: somos todas mães, e vamos de mãos dadas.

Gostou? Então, seja bem-vinda ao Maternativa.

Fernanda Favaro

Fernanda Favaro, 38 anos, é jornalista e tradutora radicada em Estocolmo. Feminista em construção e desconstrução. Mãe da Nina, 15 anos, da Liv, 1 ano e 8 meses, e da Milly, a gata, 4 anos.

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