#2.Criatividade

Por Rute Bersch*

No final de novembro, em dois momentos em que me propus estar comigo mesma, a palavra CRIATIVIDADE apareceu de uma forma nova para mim e trouxe um novo significado. É sobre isso que quero falar no primeiro texto do ano para esse blog.

A primeira situação foi em uma breve ‘consulta’ ao Oráculo das Deusas. Confesso que estava me sentindo um pouco estranha – não sei se o nome correto que se dá é consulta, por isso coloquei entre aspas. Em todo caso, a carta que tirei foi ‘Ix Chel’, a deusa da Criatividade, adorada pelos maias. Na descrição da carta, o seguinte trecho me chamou à atenção: “Crie! Seja ousada! Mas também seja responsável e consciente, quer suas criações sejam obras de arte ou obras da carne (filhos). A criatividade alimenta, costura os rasgos feitos em nossa vitalidade, cura. Ela é nosso direito por nascença e o sangue da nossa vida; ela nos faz saudáveis e felizes. Nós, mulheres, temos a capacidade de criar: nós damos à luz. Portanto, encontre tempo, crie um tempo, descubra o tempo de ser criativa.”

A segunda situação, apenas alguns dias após a primeira, foi no finalzinho do “Encontros Pulsantes #3”, quando apareceu novamente a ideia de que um ser criativo é um ser que tem a capacidade de criar.

Resolvi fazer uma busca na internet sobre o significado da palavra ‘criatividade’ e, num primeiro momento, encontrei as seguintes definições: substantivo feminino 1. qualidade ou característica de quem ou do que é criativo. 2. inventividade, inteligência e talento, natos ou adquiridos, para criar, inventar, inovar, quer no campo artístico, quer no científico, esportivo etc. Pesquisando um pouco sobre a origem da palavra, encontrei que ‘criar’ vem do latim CREARE; e buscando a tradução da raiz CREARE, encontrei: 1. criar, produzir, fazer. 2. gerar, dar à luz. 3. preparar, causar. 4. escolher.

Geralmente associamos a palavra criatividade à inventividade, à originalidade, à inovação, sem atribuí-la à capacidade de gerar ou produzir. Nessa associação, muitas vezes, ficamos engessadas na ideia de que um ser criativo é um ser com maior facilidade para a inventividade – ou seja, um ser ‘iluminado’. Quase um mito. Sendo assim, podemos nos sentir ‘pouco criativas’ ou inseguras para dar o primeiro passo ou continuar tentando em nossos empreendimentos. Não sei vocês, mas minha cobrança interna e autocrítica só pioraram com a maternidade. E vejo isso um pouco como reflexo do quanto nos sentimos (e de fato somos!) cobradas em todas as escolhas que passamos a fazer, desde a gravidez, e principalmente depois dela, com nossos pequenos nos demandando o tempo todo. E soma-se a isso o fato de que a disponibilidade de tempo para pensar em ideias incríveis e mirabolantes parece uma realidade muito distante.

Mas quero fazer uma pequena desconstrução desse ‘mito’, a partir do entendimento de que a criatividade é simplesmente ‘a capacidade de criar’. De fazer. De gerar. De produzir. De colocar a mão na massa pra ver no que vai dar, sem o compromisso da genialidade, da originalidade. A partir do momento que começamos a criar, a produzir, há uma transformação, há uma evolução das nossas ideias.

Já temos um ponto de partida, mesmo sem saber onde queremos ou vamos chegar. Mas uma coisa leva à outra. O fazer nos desperta de forma  diferente, permite pensares diferentes. Você olha para o que começou a fazer e visualiza concretamente se é por aí mesmo que quer ir. Tem a possibilidade de reformular, reconstruir a ideia original; consegue ter distanciamento para analisar, transformar e crescer. E sabe aquele papo de desapegar das coisas para deixar entrar coisas novas? Tirar uma ideia da cabeça libera espaço para entrar mais e mais e mais…

Geramos em nossos corpos o que há de mais complexo e belo: a vida. Pensar que nós mulheres somos criadoras por natureza, é entender que a capacidade de criar faz parte do nosso universo, naturalmente. Está dentro de nós. Só precisamos permitir que se potencialize e se revele. E a maternidade pode alavancar um processo de redescoberta, de olhar para si e se re-conhecer, de se re-significar, de resgatar essa potência adormecida. Mas só vai acontecer, é claro, se estivermos dispostas a encarar esse processo.

Vivemos no meio de um bombardeio de informações. Conteúdos de todo tipo são acessíveis e absorvíveis com uma ‘facilidade’ antes desconhecida e até inimaginável. Mas será que apenas ler e absorver incessantemente o que acontece no mundo, sem produzir nada, nos satisfaz? Para mim, não tem funcionado muito bem. Cada vez mais tenho sentido necessidade de ‘fazer algo’. E tenho a sensação de que começando, serei levada naturalmente ao que eu quero construir de verdade. Como pessoa e como empreendedora.

O que nos impede de começar? O que nos impede de fazer? Medo do julgamento? Medo do que pode não dar certo? Falta de tempo? De coragem? De dinheiro? Enquanto não desvalorizarmos um pouco essas inseguranças e começarmos a fazer, não conseguiremos seguir em frente. Não adianta ficar pensando infinitamente, querendo alcançar o ‘ideal’, quando existe o risco de chegarmos ao ‘ideal’ e perceber que na prática não era o que estávamos buscando. Só vamos conseguir produzir se começarmos.

Em um curso que fiz no ano passado foi sugerida uma prática: começar a fazer, seja lá o que fosse, em todas os âmbitos – trabalho, casa, família, amigos. Parar de delegar, pensar ou esperar, e fazer com as próprias mãos. Comecei pelas coisas da casa, que eram evidentemente as mais ‘fáceis’. E fiquei impressionada como aquele movimento se refletiu nos meus projetos engavetados na cabeça. No quanto ‘criei coragem’ para começar a tirar as coisas da cabeça e arriscar um primeiro passo.

Penso que o caminho pode ser por aí. Podemos encarar a criatividade como o talento nato das pessoas para encontrar soluções inovadoras, ou como o resultado de processos incansáveis de ‘fazeres’. E tentar, e errar, e aprender, e evoluir.

Que 2016 venha cheio de CRIATIVIDADE para todas nós!

Rute Bersch

Rute Bersch, 39 anos, arquiteta-urbanista e mãe. Junto com o filho Otto, tem aprendido a olhar o mundo e se inspirar todos os dias.

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