#3. Dinheiro é tempo

*Por Rute Bersch

Recebi há algum tempo, de pessoas diversas e por meios diversos, um vídeo do José Mujica, falando brevemente sobre a relação consumo-dinheiro-tempo. O vídeo é um trecho do depoimento que o ex-presidente uruguaio fez para o filme Human (mais infos no rodapé), do diretor e artista Yann Arthus-Bertrand. Trago aqui a parte do trecho que me ‘pegou’:

“Quando compro algo, ou você compra, não pagamos com dinheiro, pagamos com o tempo de vida que tivemos de gastar para ter aquele dinheiro. Mas tem um detalhe: tudo se compra, menos a vida. A vida se gasta. E é lamentável desperdiçar a vida para perder a liberdade”.

Fomos preparados para viver a vida na lógica do “time is money”; ou seja, todo o meu tempo deve ser empregado para a obtenção de mais dinheiro, posses, bens de consumo. Essa ideia esta enraizada na nossa cultura, apesar de ultrapassada. E a questão que surge da fala do Mujica é que o dinheiro é uma ‘moeda de tempo’ – disponível, possível, investido, desperdiçado. Isso muda sensivelmente a forma como encaramos nosso trabalho, nossa vida pessoal, social e familiar. Pensar “MONEY IS TIME” é uma mudança profunda de perspectiva!

A primeira coisa que me vem na cabeça é uma revisão urgente de hábitos, sobretudo do péssimo hábito de estar sempre correndo atrás do relógio. Tudo cronometrado: agenda densa de compromissos, horários apertados, tempo desperdiçado no trânsito, e o mais importante feito na última hora ou sempre ‘pendente’. E quando percebemos, passou mais um ano, e outro, e outro, e facilmente passou uma década. Tomar café da manhã calmamente (com a família) pode parecer ‘um luxo’, mas pode dar o gás necessário para enfrentar um dia mais difícil no trabalho. E preferimos sair correndo. A instantaneidade a que nos permitimos viver, com a proliferação da tecnologia, dos celulares e seus aplicativos, nos atropela diariamente. Lemos, curtimos e respondemos mensagens, posts ou textos de maneira mecânica, sem a menor concentração ou reflexão. Negligenciamos capacidades básicas como: ouvir, sentir, observar, pensar, descansar, ler, degustar, respirar, meditar…. e essas são ferramentas fundamentais para a ‘inspiração’.

Tudo isso pode parecer romântico e subjetivo, mas quero trazer quatro pontos bem concretos para o universo materno-empreendedor-consumidor, associados à lógica do ‘dinheiro é tempo’:

>> A VALORIZAÇÃO DOS NOSSOS SERVIÇOS E PRODUTOS: o empreendedorismo materno é relativamente recente, e culturalmente carrega uma imagem equivocada de ocupação secundária, de algo como preencher o ‘tempo livre’ (alguém me diz que tempo livre é esse?) da antiga dona de casa, quase um hobby. Muitas vezes é visto como abandono de carreira, ao invés de uma nova carreira, oportunidade ou conquista. E, o que eu considero pior, muitas vezes encarado pelo consumidor como um ato de ‘caridade’ (“vou ajudar àquela mãe”). NÃO!!! NÃO É NADA DISSO!! É justamente o contrário! O empreendedorismo materno tem crescido devido a uma luta feminina para garantir seu espaço como profissional atuante, num mercado que simplesmente ignora, evita e oprime a presença das mães-mulheres. Ele tem sido uma conquista muito suada e batalhada, não há nada de hobby aí!

Estamos falando de mulheres que escolheram não ficar em casa para cuidar apenas da família, mas que querem cuidar também de si, do seu espaço, do seu crescimento pessoal e profissional. E para isso, precisam administrar de forma bastante complexa o seu tempo. Portanto, quando estamos quantificando o valor do nosso trabalho – estou falando da hora de cobrar, daquela hora em que as incertezas e inseguranças nos fazem cobrar menos do que sabemos que deveríamos – devemos ter sempre presente o pensamento de que nosso trabalho é tão ou mais digno do que qualquer outro e por isso deve ser valorizado como tal.

>> A REVISÃO DE NOSSO PAPEL DE CONSUMIDORAS E EMPREENDEDORAS a partir do entendimento de que nosso dinheiro – o dinheiro de nossos empreendimentos – é tempo precioso investido. Quero reforçar nesse tópico a ideia do consumo consciente, em três aspectos:

  1. no nosso consumo pessoal (atentar para a real necessidade do que estamos consumindo e pensar ‘quanto tempo eu preciso trabalhar para adquirir tal coisa? qual a relevância disso?’);
  2. na seriedade ao escolher parceiros e fornecedores, para quem somos uma espécie de consumidoras (buscar empresas ou pessoas que respeitem o nosso tempo, que tenham empatia e que não se beneficiem com a exploração de outras pessoas, inclusive nós mesmas);
  3. na oferta de nossos produtos e serviços (pensar se estamos oferecendo produtos dentro de uma visão e de uma prática global e consciente para nossos consumidores).

>> O PLANEJAMENTO: Para isso sugiro dar uma olhadinha no vídeo do Cafeína #3, com a Yara Troppea, que fala sobre organização do tempo, das listas de tarefas, das metas e outras questões relacionadas ao tema ‘conciliar família e trabalho’. E quero pontuar algo que pra mim é muito difícil: saber dizer não! Perdemos muito tempo em coisas inúteis, supérfluas e desnecessárias pelo simples fato de ‘achar’ que não podemos dizer não (seja por não querer, por não poder, por não precisar, ou por não qualquer coisa!). Saber avaliar o que será benéfico e viável para nossos negócios é fundamental para otimizar o tempo disponível. Esse ponto pode parecer um pouco ambíguo, já que o tema hoje tem a ver com ‘relaxar’ mais. Mas há uma grande diferença entre ser escravo do tempo para adquirir mais e mais dinheiro, e otimizar o tempo investido para captar  dinheiro.

>> A ILUSÃO DE QUE EMPRESÁRIO É QUEM TEM DINHEIRO pode nos dar uma perspectiva frustrante para os negócios. Estamos sempre almejando um estereotipo de ‘empresário bem sucedido’ que praticamente inexiste, se pensarmos estatisticamente! Isso gera uma insatisfação desnecessária. Quando conseguimos ter calma e distanciamento para observar nossos negócios – e isso exige tempo! -, é possível enxergar de forma positiva o que já conseguimos realizar, construir, conquistar, e dar a devida relevância para onde ainda queremos evoluir. Portanto, empresário bem sucedido é o empresário que tem tempo! Para observar, avaliar, voltar atrás, reconstruir, crescer, projetar; a si e à sua empresa.

Por fim, acredito que a maternidade pode ser um caminho de revisão e enfrentamento de muitas questões. Uma delas é a qualidade de vida. Quando temos mais tempo, ganhamos em qualidade de vida.

Há mais tempo para sorrisos, abraços, afetos, relações. Há mais tempo para chorar, também – o que é muito bom! Há mais tempo para contemplar: uma formiga, uma borboleta, uma folha que cai, um sopro de vento, um tropeço, um céu estrelado, uma gota, um sorriso de um rosto estranho. Há mais tempo apreciar e viver a vida. E isso reflete diretamente na nossa produtividade no trabalho, seja ele qual for.

Para uns, o caminho pode ser mudar de cidade, de bairro, de estado, de país! Para outros, mudar de emprego ou de endereço, para morar mais próximo do trabalho. Para uns pode ser tirar um ano sabático.

Para outros, a escolha de ficar com os filhos. Ou a de deixá-los com alguém para poder trabalhar.

Os filhos crescem muito rápido. A vida se transforma muito rápido. E cada vez mais tenho pensado que o importante é deixar de atropelar a vida com o tempo e começar a atropelar o tempo com a vida!

Sobre o filme Human:

Yann Arthus-Bertrand passou três anos coletando depoimentos 2000 mulheres e homens em 60 países no intuito de encontrar respostas à questão: O que nos torna humanos? Os depoimentos abordaram diversos temas, como amor, família, sexo, trabalho, vida, pobreza. O filme foi dividido em três volumes e está disponível na web de forma gratuita.

Rute Bersch

Rute Bersch, 39 anos, arquiteta-urbanista e mãe. Junto com o filho Otto, tem aprendido a olhar o mundo e se inspirar todos os dias.

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