Consuma financiamentos coletivos!

*Por Carolina Paixão

Era muito comum, quando eu era jovem, me reunir com amigos, organizar uma vaquinha e fazer um churrasco de abobrinha (éramos vegetarianos, fase que vem e volta na minha vida, mas isso é papo para depois). Vaquinha em forma de dinheiro e alguém se responsabilizava pelas compras, ou cada um trazia o que tinha em casa, ou soubesse fazer. Quem nunca fez isso?

Rolava uma discussão do que era importante para todos, o que não podia faltar e democraticamente o recurso era empregado, satisfazendo a todos.
Como não tínhamos muito dinheiro, essa era a forma de realizarmos uma vontade, de CONSUMIRMOS um dia juntos, com alimento, na casa de alguém, bebida, diversão.

Eu e meu marido fazemos aniversário um dia após o outro. Resolvemos então fazer um churrasco juntos, com os amigos de ambos, no sitio da minha avó. Era muita gente! Como viabilizar? Muita comida, bebida, gente para ajudar. Contribuição voluntária! As pessoas COMPRARAM a idéia. Foram uns 5 anos consecutivos e momentos marcantes. As pessoas CONSUMIRAM nossa idéia para estar junto, para dividir momentos, pela experiência.

Percebi que assim eu fui criando a forma como eu me relaciono com o que eu CONSUMO. Ter uma idéia legal, que possa trazer alguma satisfação para quem eu gosto e quero estar junto e que essa idéia seja COMPRADA e curtida por todos.

E sabe que foi assim que os financiamentos coletivos foram se estruturando, até ter a cara que tem hoje, com sites especializados para montar a vaquinha do seu projeto.

Mas o que isso tem de sustentável? O que isso está relacionado ao CONSUMO consciente?

Vou usar o financiamento do Maternativa para explicar.

Sustentabilidade, como eu contei no primeiro post dessa coluna, é SUSTENTAR uma rede que se autoalimenta. Então, as criadoras lançam um projeto que envolve empoderar mulheres/mães para que elas criem e/ou fortaleçam seus empreendimentos e viabilizem presença com seus filhos. Palestras, espaços, blog, site, divulgação, manutenção de redes. RECURSOS físicos, financeiros, humanos. Até então, elas faziam uma vaquinha que arrecadava espaços, recursos, pessoas interessantes para compartilhar conhecimento, um fotógrafo, seu tempo. Para SUSTENTAR essas iniciativas, ou seja, para que elas cresçam e possam continuar acontecendo, empoderando mulheres empreendedoras, de graça (cadastro no site e o Cafeína, por exemplo), elas nos apresentam um projeto de financiamento coletivo de caráter social. Elas estão propondo uma vaquinha, na qual elas serão as responsáveis pelas compras, entende? Compras estruturadas e apresentadas previamente. Ou seja, se você CONSOME o que elas estão propondo, você CONSUMIRÁ informação sobre empreender e criar seu filho com presença. CONSUMIR coletivamente e conscientemente esse projeto é alimentar seu próprio negócio e a criação do seu filho. E a REDE foi costurada. E é isso que ela tem de sustentável. Você CONSOME o que SUSTENTARÁ a alma do seu negocio e da sua vida, seu filho.

O ponto interessante sobre o coletivo é que, nesse caso, ele tem o poder de viabilizar ou não o projeto. Um projeto viabilizado coletivamente é forte, é amparado, é empoderado. Portanto se você contribui para fortalecer esse projeto, você contribuirá para fortalecer os seu projeto pessoal. A rede que se autoalimenta.

Se elas tivessem grana e quisessem empregar da forma como elas achassem mais interessante talvez não atingisse tantas mulheres/mães. O coletivo permite que você se coloque. Coloque suas necessidades que inclusive, podem ser as mesmas da mãe ao seu lado. Como a discussão comum da vaquinha do churrasco, compra mais cerveja ou mais pão de alho. E essa construção coletiva foi se costurando a partir do que é levantado por todas nós
na página do facebook. Por isso, ela é fundamental. Ela valida o coletivo.

Fico até me perguntando cada vez que alguém propõe um financiamento coletivo por que a vaquinha do churrasco é tão menos questionada que um projeto que propõe clareza de informações, relatório do uso do recurso, retorno em forma de informações e sustentabilidade? Acho que vou começar a emitir relatório do churrasco!

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