[Ins]pirações #4 . Balde é coisa de mulher

*Por Rute Bersch

Num sábado delícia de sol, em que tiramos a manhã pra brincar na praça do bairro, presencieia cena de um pai tirando um baldinho de praia da mão do seu filho, de uns 4 anos, com a seguinte frase: “Balde é coisa de mulher! Devolve pra ela!”.

Não consigo elencar tudo o que pensei na hora, mas senti uma repentina ânsia de vômito (sem exageros), um nó na garganta, e meus olhos se encherem de lágrimas. Apesar da angústia, emudeci. Infelizmente. Sou do tipo que ‘engole-seco-e-fica-pensando-se-realmente-ouviu-o-que-acha-que-ouviu’. As palavras faltam. Uma mistura de pasmice, imobilidade, falta de coragem, um ‘não-querer-julgar’…. E fiquei com a sensação de não poder fazer nada. E não fiz.

Os pensamentos que desencadearam daquilo me levaram a outra cena, num parque, alguns meses antes, em que um pai estava passando o dia com sua filha de 1 ano e meio e perguntava, visivelmente para se exibir aos amigos: “Cadê o corpinho do papai?”. Em resposta, ela fazia poses levantando o vestidinho e mostrando o bumbum de lado. Minha vontade era de gritar, sair correndo, ‘vomitar’ um monte de coisas para ele, tudo junto ao mesmo tempo… Mas não fiz nem falei nada. Também.

Muitas mulheres conseguem ter uma atitude imediata e dão uma aula para os pais (ou quaisquer sejam os cuidadores que estejam com a criança no momento) numa situação machista, sexista ou preconceituosa. Mas temo que não seja a maioria. Temo que a maioria das mulheres, assim como eu, ainda fica calada – ou por submissão, ou por perplexidade, ou por falta de espontaneidade e presença de espírito; ou por acharem que não tem a ver com elas; ou ainda pior, por concordarem e acharem que é normal. É por e para todas essas mulheres que quero escrever hoje: SIMPLESMENTE NÃO PODEMOS MAIS ACEITAR! Não podemos mais acreditar, fingir ou ‘não-agir’ como se aquilo não fosse conosco! Por que é, sim, conosco!

Não adianta ralarmos em jornadas dilatadas pra ‘cumprir nossas obrigações’ de mulheres, mães, filhas, tias, donas de casa e ainda de trabalhadoras-empreendedoras, se não nos posicionarmos frente ao machismo. A FALSA CRENÇA DA ‘SUPERMULHER’ NÃO PROVA NADA! Precisamos mudar de atitude nas nossas casas, nas nossas rodas sociais, nos nossos meios de convivência e também no nosso trabalho. Precisamos falar sobre isso e chamar junto pra responsabilidade. Falar em voz alta e não apenas para nós mesmas: “foi isso mesmo que você falou?”. (Falo no plural, pois estou falando para mim mesma!).

Está na hora do mundo ser mais respeitoso, e não falo apenas na questão do gênero. É nossa obrigação mostrar na prática, sobretudo aos nossos filhos e filhas, que podemos construir um mundo melhor. E sabem o que acho incrível?? TEMOS A OPORTUNIDADE DE FAZER ISSO NOS NOSSOS NEGÓCIOS! Podemos oferecer novas escolhas, novos produtos e serviços. Podemos oferecer produtos que questionem, que mostrem outras formas de convivência e que fomentem a interculturalidade. Podemos gerar e divulgar conteúdo pertinente nos nossos canais de comunicação. Há uma gama gigantesca de possibilidades a partir de um olhar mais atento às diferenças!

Quero fazer um convite: que tal parar para observar nosso negócio – nossas práticas, nossa postura, os produtos ou serviços que temos oferecido, a forma como os oferecemos e como nos relacionamos – e tentar imaginar COMO PODERÍAMOS TORNÁ-LO TRANSFORMADOR?

A primeira coisa que me vem à cabeça é o universo infantil, pois tenho muita convicção de que as crianças são os verdadeiros agentes de transformação. Dentro desse universo, quase diariamente, me deparo com situações que ainda são muito culturalizadas e pouco pensadas.

Naquele lógica do ‘se todo mundo faz assim e dá certo, por que eu faria diferente?’ Vejo ofertas de brinquedos em que a distinção de gêneros ainda está muito evidente – às vezes de forma gritante -, com apelos comerciais ultrapassados e totalmente direcionados ‘aos meninos’ ou ‘às meninas’. A informação (ou desinformação) às vezes é colocada de forma sutil, não óbvia, nas embalagens, manuais ou catálogos, e o produto até se encontra disfarçado na categoria de ‘produto educativo’. Mas o preconceito está lá. E as crianças absorvem naturalmente. E se entendêssemos que as crianças não são enquadráveis em ‘modelos-projetados-para-usufruir-de-determinadas-brincadeiras-cada-vez-mais-especificias’ e ousássemos na hora de criar, adquirir ou comercializar brinquedos, propondo produtos que não sejam padrões comerciais pré-estabelecidos? E se ‘fugíssemos’ dos personagens chavões, que mostram um mundo de princesas e príncipes, mocinhas e super-heróis, todos ‘perfeitos-vivendo-felizes-para-sempre’, completamente fora da realidade? Onde cabe às meninas ser frágeis, consumistas ao extremo, dotadas de ‘comportamentos de princesa’, ou responsáveis por afazeres domésticos; e aos meninos, por sua vez, cabe ser príncipes, salvadores, super-heróis das meninas indefesas? Se optássemos por brinquedos mais abrangentes, que permitissem mais possibilidades de uso, a fim de reduzir o consumo e estimular as potencialidades das crianças visando o brincar livre, sem limitações para o desfrute? O que sobraria? Ou melhor, o que surgiria?

Na hora de procurar roupas, acessórios e fantasias, o mercado continua insistindo nas limitações de cores, estampas e modelagens por gênero, além da venda associada a estereótipos e personagens; ou seja, reproduzindo os modelos padronizados. Você entra numa loja (inclusive virtual) e a primeira coisa que te perguntam é ‘você está procurando artigos para meninos ou meninas?’. Soma-se a isso a adultização da infância. Será que dá pra fazer simplesmente ‘roupas para crianças’? Cada vez mais precocemente nossas crianças são exploradas pela indústria de roupas, acessórios, cosméticos e afins, que as transforma em ‘objetos-manequins-consumidores’ que reproduzem inocentemente uma mentalidade machista e sexista. E se parássemos de consumir/produzir/comercializar esse tipo de produto? Se deixássemos de ver com naturalidade a forma como vemos meninos e meninas sendo explorados por esse mercado? Será que não dá mesmo pra fazer diferente?

Igualmente, na área de decoração de ambientes e de festas predomina a distinção de gênero, como oferta e como demanda. A questão começa antes mesmo da criança nascer, quando há toda uma mobilização e ansiedade pelo sexo do bebê, ‘para poder decorar o quarto e fazer o enxoval’. Muitas vezes, se dá mais atenção a isso do que à necessidade de preparar o ambiente funcionalmente para que o bebê-criança possa se desenvolver plenamente na busca da sua autonomia. E fico pensando: não poderia partir da gente inovar? Há tanta coisa a se pensar e a conversa se limita a definir entre rosa/lilás ou azul/verde? E a moda das festas infantis temáticas, restritas a personagens ou gostos ditados como ‘de menino’ ou ‘de menina’, que foi simplesmente inventada para gerar uma nova necessidade de consumo e com isso vender uma infinidade de itens cada vez mais específicos e supérfluos… E se essas festas voltassem a ter como ‘tema’ simplesmente a criança aniversariante?

O mercado tem condicionado nossas escolhas, tem privado a criança e o adulto de ter autonomia para optar com liberdade, de criar por conta própria. É mais fácil produzir/consumir o que é padronizado; é mais vendável e lucrativo. Portanto, aí vão algumas perguntas para quem empreende (para a garotada), seja em produção, promoção ou comercialização de produtos/serviços:

1. O produto/serviço que estou oferencendo pode ser utilizado por qualquer criança? Ou, então, minha linha de produtos dialoga e respeita a individualidade, independente de gênero, permitindo que a criança possa simplesmente ‘ser criança’?

2. Há mensagem implícita que ressalte ou restrinja o uso ao ‘diferente’? Se sim, que produto/serviço posso oferecer, que seja mais abrangente, versátil e inclusivo?

3. Como posso contribuir, a partir da oferta de ‘produtos para crianças’, para que as pessoas (os adultos!) reflitam sobre as diferenças e percebam a necessidade de mudar de atitude?

Ainda pode parecer complexo trabalhar produtos infantis fora da lógica menino X menina, porque o consumidor, de um modo geral, ainda não está preparado para isso. Mas há duas questões a considerar. Primeiro, o consumidor está mudando – é um fato! E se adequar ao novo consumidor significa estar atento a novas oportunidades! Segundo, podemos ajudar a mudar o mercado oferecendo produtos alternativos, inovando, abusando da criatividade, e gerando informação com mente e coração abertos.

Que tal pensar: [ONDE? COMO? O QUÊ?] posso mudar no meu empreendimento para fazer diferença no mundo? Dentro do Maternativa há muitas empreendedoras com um olhar mais atento e consciente e temos muito a comemorar. Mas precisamos do time inteiro! Assim, quem sabe, a imagem de que a mulher é um ser que apenas “consome incontrolavelmente”comece a, de fato, ser substituída pela imagem da mulher que questiona, produz e transforma!

Rute Bersch

Rute Bersch, 39 anos, arquiteta-urbanista e mãe. Junto com o filho Otto, tem aprendido a olhar o mundo e se inspirar todos os dias.

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