Um movimento, muitas línguas – parte 1

Por Fernanda Favaro*

No meu último post, eu fiz um apanhado sobre a presença e importância crescente das mães empreendedoras no mundo.

Hoje, apresento o primeiro de dois posts sobre algumas das redes que têm me chamado mais a atenção em meu processo de pesquisa sobre o empreendedorismo materno internacional, seja pela proposta de trabalho, pelas sacadas ou pelo chamado ao empoderamento feminino.

Acho importante dizer que minha lista vai deixar de fora muitas redes bacanudas desse mundão. É que fica difícil não puxar a sardinha pros países falantes de inglês, português, italiano e espanhol, que são algumas das línguas com as quais a gente tem maior familiaridade. Fico pensando em quanta coisa boa deve estar florescendo em países asiáticos ou árabes, por exemplo. Por isso, já deixo aqui meu convite: se você conhece uma rede assim, põe na nossa roda! A gente provavelmente não vai entender muita coisa visitando no site, mas vai ficar feliz se você der uma palavrinha inspiradora a respeito.

Vamos ao nosso primeiro giro?

Mum2Mum (NIGÉRIA)

O recado de Grace Essen, fundadora da NGO Mum2Mum, diz muito sobre a situação de qualquer mãe contemporânea: a maternidade soterrou sua vida profissional e sua autoestima? Aqui a gente te ajuda a recuperar seus sonhos e liberar seus “poderes” por meio de coaching, mentoria, treinamento – e eventuais braços para te abraçar nas horas punk.

O interessante da Mum2Mum, além da ideia grandiosa de expandir o conceito de autossuficiência material para o de “recuperacão do sonho”, é que ela funciona como uma plataforma de conexão peer-to-peer, ou seja, de mãe para mãe. Elas atuam como modelos inspiradores e coachers umas das outras, apoiando-se mutuamente para o alcance de objetivos como iniciar ou promover o próprio negócio, ampliar networks, repensar a carreira, e até educar filhos. O que a rede faz é, basicamente, juntar a fome com a vontade de comer, oferecendo uma espaço virtual privilegiado para esses encontros.

Todo o trabalho é apoiado sobre três pilares: educação, empoderamento e apoio. No primeiro, a ideia é a troca de experiências da vida real e informações que possam “equipar outras mães ao equilíbrio de muitos papéis e inspirar”. Na segunda, o objetivo é apoiar a mãe em seu processo de auto-descoberta, liberação de potencial e renovação da confiança própria. No terceiro, elas se colocam como “torcedoras número 1”, sempre prontas pra oferecer escuta e conselhos nos momentos difíceis da jornada do empoderamento e empreendedorismo maternos.

Tudo é oferecido gratuitamente, inclusive o livro da Grace, “Successful Working Mom”, um guia de dicas simples para mães empreendedoras.

Mums in business (Reino Unido)

O interessante desta rede que ela é um negócio social cujo “produto” principal é a forma de participação na rede, a qual se divide em duas categorias: free e premium. A inscrição gratuita garante acesso a informações sobre ferramentas de negócios, acesso à comunidade de membras, oportunidades de trabalho em casa, mailing list de membras, ideias de negócios, descontos em serviços, entre outros. Já a premium custa 7.5 libras por mês (cerca de 35 reais) e inclui, além de tudo o que o free possui, o oferecimento de um pacote de serviços como alertas de midia, assinatura de revista da rede, pacote de hospedagem web e curso de WordPress, entre outros benefícios. Apesar do viés mais comercial, a rede pratica valores bem abaixo do mercado para as mães membras, e garante vantagens como incluir mais serviços bacanas nos pacotes sem “nunca mais” alterar o valor da mensalidade.

Ao meu ingênuo ver, parece uma proposta de custo-benefício bastante vantajosa para as mães inglesas. Aparentemente, não sou a única a pensar assim, já que a iniciativa já recebeu vários prêmios relacionados ao mundo dos negócios sociais desde seu surgimento.

Mamás Emprendedoras (Venezuela)

Apesar de bem menos rico em conteúdos do que outras redes, o Mamás Emprendedoras também oferece um serviço de assinatura para recebimento de dicas exclusivas de empreendedorismo, e o mais legal: tem um programa em uma rádio web comunitária, a Radio Comunidad.

Ainda não consegui me organizar para ouvir um programa das mamás emprendedoras, mas achei genial a difusão de serviços e informações úteis para esse público via um meio de comunicação ainda vital para comunidades de diferentes matizes sociais e econômicos. É um caso bacana de expansão de uma rede para além do círculo das mídias sociais “elitizadas”.

Se você por acaso conseguir ouvir o programa nesses próximos dias, comente esse post contando o que achou, combinado?

The Founding Moms (EUA)

A plataforma se define como um coletivo de encontros offline e recursoss online por meio da qual mães empreendedoras podem trocar ideias e conhecimentos, se conectarem e aprenderem sobre negócios umas das outras. A ideia central é que bem ali, do outro lado da sua rua, pode haver uma outra mãe empreendedora com algo bacana pra trocar contigo, e algo bacana pra ouvir de você. A rede de mães também se beneficia da interação com renomados especialistas em negócios (assim como a gente aqui no Maternativa), e da construção de conexões pessoais e profissionais poderosas, que reverberam em parcerias colaborativas (humm…). Nesses encontros, além da boa prosa sobre estratégias de negócios, marketing de conteúdo, presença em mídias sociais, contabilidade etc, o binômio café e filhos são presença garantida (opa, acho que já vi esse filme!).

A rede se orgulha de “acontecer” em dezenas de cidades norte-americanas e até outros países, como Austrália, Canadá, Cingapura, Holanda, Croácia e México através do conceito de meet-ups entre vizinhas ou moradoras de uma mesma cidade. Em 2013, a revista Forbes nomeou a webpage do coletivo como um “Top 10 Websites” para mães empreendedoras, e em 2015 como um dos “Top 100 Websites” para empreendedores.

Gazdagmami (Hungria)

Foi osso, pra dizer o mínimo, entender alguns dos conteúdos do site da rede traduzidos para o português (quem mandou não saber húngaro, não é mesmo?). Mas graças ao São Google de Todos os Burros, achei muitas informações em inglês sobre as minas. E gostei muito de saber que sua fundadora, a empresária e mãe de dois Agnes Vida, criou a Gazdagmami como um simples blog a partir do qual dava dicas para outras mães que desejavam criar e tocar um negócio próprio. Ela é mais uma prova de que basta um ponta-pezinho básico para que se descubra e se energize um verdadeiro mundo de gente carente por informação, apoio, espaço para troca etecetera e tal.

Também gostei muito de saber que, apesar de ter se tornado uma “potência” entre as redes europeias dessa natureza, Agnes – hoje uma espécie de superstar do empreendedorismo na Hungria – se manteve fiel à missão de levar seus conhecimentos como empreendedora de sucesso para mais mulheres. Exemplo disso é a conferência “Bring it on!”, um encontrão anual bem mão na massa sobre marketing, de onde as mães inscritas saem atualizadas nas tendências do campo e elaboram juntas seus planejamentos para o ano.

Na mesma linha, a rede oferece programas de ensino à distância gratuitos e dowload de livros, como o “50 ideias de trabalho em casa”, com ideias práticas, viáveis e simples de negócios após a chegada dos filhos. Por sua atuação preenchendo um gap do mercado de trabalho europeu, que focaliza muito mais as mães “CLT” do que as empreendedoras, em 2014 Agnes recebeu o “The European Enterprise Promotion Award”.

E aí, gostou de conhecer outras maternativas pelo mundo? Espero que sim! No próximo post tem mais.

Fernanda Favaro

Fernanda Favaro, 38 anos, é jornalista e tradutora radicada em Estocolmo. Feminista em construção e desconstrução. Mãe da Nina, 15 anos, da Liv, 1 ano e 8 meses, e da Milly, a gata, 4 anos.

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