Cidadania planetária materna e empreendedorismo

Por Carolina Paixão*

Há um ano e oito meses minha filha nasceu. Primeira filha.

Eu morava em São Paulo, trabalhava no Sesc, inclusive aos finais de semana. Estava a exatamente 5 anos no Sesc e aprendi a amar a cena cultural da cidade, a receber e produzir shows, espetáculos, atividades socioeducativas de pessoas incríveis, além do programa de sustentabilidade da instituição da qual eu era super envolvida. Eu realmente gostava do que eu fazia. Nos primeiros 3 anos eu saia da Zona Oeste até Itaquera (zona leste, uma hora de viagem), todos os dias, sem reclamar!

Bom, eu engravidei. Fiquei os últimos dois meses de gestação em licença médica. Pari, e tinha expectativa de voltar em 5 meses (4 de licença maternidade e um mês de férias). Minha filha nasceu e uma transformação profunda aconteceu. Acho que muitas de nós conhecemos esse sentimento, não é? É como se aquela super trabalhadora não fizesse mais sentido. Como eu iria deixar aquele bebê tão pequeno e que precisa tanto de mim sob os cuidados de outra pessoa, seja ela quem ou onde for? Como voltar para um esquema de trabalho que não apóia a amamentação prolongada, ou mesmo não possui estrutura para que a mãe amamente exclusivamente até os 6 meses, que propõe uma jornada de 10 horas longe dos filhos (sem trânsito)? Tudo isso para SUSTENTAR um sistema de cuidado precário do qual a mãe deve submeter seu filho a inúmeras condições alheias a sua vontade (de condicionamento de comportamento, de linha educativa, de alimentação), aluguéis com valores astronômicos, transporte caro e lento?

Não. Nada disso fazia mais sentido para mim. Para nós. E como transformar essa realidade era um sonho da família, conversamos, colocamos as contas no papel e mudamos de vida. Sim, nós somos dos mais radicais. Quando Serena completou 1 ano mudamos de cidade (fomos morar perto da praia), conseguimos comprar nossa casa (nosso dinheiro nessa cidade valia muito mais), só andamos de bicicleta, reduzimos tanto nossos custos que eu pude optar por criar integralmente minha filha durante um tempo. Sou educadora e para mim cada passo, cada encorajamento, cada brincadeira é importante.

Mas, senti vontade de criar mais e aliar a necessidade de SUSTENTABILIDADE econômica. Encontrei uma parceira de vida que passava exatamente pelo mesmo momento (de vida e de maternidade, nossas filhas tem a mesma idade) e criamos nosso empreender. A condição principal desse trabalho: ter a companhia das nossas filhas.

O que eu percebi nesse processo é que essa é uma escolha SUSTENTÁVEL. O que ela sustenta? Sustenta financeiramente minha família, diminui meu impacto ambiental, mas, muito mais do que isso, escolher empreender para ficar mais próxima da minha filha sustenta valores que são importantes para o nosso futuro. Que fazem eu acreditar que eu criarei um ser humano bom, que respeita as formas de vida, que vive para uma cidadania planetária.

O pediatra José Martins Filho, diz, em uma entrevista para o Projeto Prioridade Absoluta, do Instituto Alana (alana.org.br):

“Você só consegue ter uma sociedade pensando no futuro se você atende bem a criança”.

E, ainda, para ele, isso envolve garantir a mulher o direito legal de não precisar abrir mão do trabalho para que ela exerça uma maternidade consciente. O que não acontece no sistema de trabalho brasileiro. Além disso, como disse belamente a minha amiga Rute Bersch, na sua coluna [ins]pirações aqui no Blog do Maternativa, escolhas como o que consumimos e como construímos nossas relações de trabalho emergem diante da perspectiva de empreender através da maternidade. E eu ainda incluiria que essas escolhas são o exemplo que daremos para nossos filhos que interagem diariamente com o que somos diante dessas relações de trabalho. É diferente de sair para trabalhar e voltar para casa no final do dia. Trazemos somente uma parte do que fomos e fizemos no espaço de trabalho.

E eu volto com a frase do ex-presidente o Uruguai José Mujica que [ins]pirou a Rute e também me inspira (não é mera coincidência, somos da mesma teia):

“Quando compro algo, ou você compra, não pagamos com dinheiro, pagamos com tempo de vida que tivemos que gastar para ter aquele dinheiro. Mas tem um detalhe: tudo se compra, menos a vida. A vida se gasta. E é lamentável desperdiçar a vida para perder a liberdade”.

E para mim fica claro. Aquele sistema que me afasta da minha filha, que consome meu tempo de vida, não SUSTENTA meus valores. Não sustentará o que eu penso para meu presente e o futuro do planeta. E se tem uma sementinha que eu quero regar para que cuide desses mesmos valores que SUSTENTAM a vida é minha filha.

Por isso empreender para ficar perto dos filhos é uma decisão SUSTENTÁVEL.

E você, quer SUSTENTAR o quê?

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