[Ins]pirações #5 . Um pouco mais sobre o tempo

Por Rute Bersch*

Desde que Otto começou a perceber o mundo e se comunicar com ele de forma mais intensa e consistente, tenho acompanhado seus olhares e suas curiosidades quando passeamos pela cidade. Uma das primeiras coisas que me marcaram foi a busca por conhecer outras pessoas, independente de quem elas fossem. O olhar dele, sem filtros ou preconceitos, resgatou em mim um olhar adormecido, um sentimento de responsabilidade e uma vontade de cuidado para com as pessoas – e as coisas, e os seres – que convivem comigo diariamente, sobretudo as que o fazem de forma anônima ou quase invisível. Pelo menos até então. Logo em seguida, fui tomada por uma angústia: era como se nada que eu imaginasse fazer para melhorar as relações com as pessoas no mundo ao meu redor pudesse ser alcançado ou fosse suficiente para dar conta da desumanidade presente em tantos lugares.

Dois posts que caíram na minha timeline, no início de março, levaram ao pensamento que vou compartilhar hoje. Eles foram como uma ‘luzinha’ para aqueles questionamentos. O primeiro texto falava de uma premiação internacional de arquitetura, que analisou milhares de projetos de arquitetura no mundo e selecionou os 14 melhores. Na categoria ‘casa’, foi premiado um projeto desenvolvido pelo escritório Terra&Tuma, solicitado por uma empregada doméstica, e construído na zona leste de São Paulo com um orçamento, de certa forma, limitado. O projeto tem impacto inegável do ponto de vista arquitetônico e socioeconômico no ambiente em que foi construído: mais do que uma referência estética, ele impacta por oferecer um serviço praticamente inexistente no seu meio – se pensarmos nos estereótipos de arquiteto e de cliente que costuma ter acesso à arquitetura. (Para quem tiver mais interesse sobre o projeto, deixo o link aqui).

Quando li a matéria, uma questão ficou batendo na minha cabeça por dias: é possível viabilizar mais projetos assim, para que esse não seja apenas um caso isolado? Há possibilidade de levar arquitetura de qualidade para as populações menos favorecidas, trabalhando com dignidade? Estamos falando de crise há tempos, mas se tem algo que é inegável é que uma grande parcela da população tradicionalmente desfavorecida começou a ter acesso a ‘setores’ da vida social, cultural e econômica até então inacessíveis. E aí?! Será que essas pessoas poderiam ser consideradas ‘um novo mercado potencial’? E comecei a imaginar possibilidades de fazer isso, dentro da minha área de formação. Seria num grande volume de mais do mesmo ou da simplificação do processo? Seria através de parcelamentos intermináveis? Seria através de permuta de serviços? Que caminhos eu poderia buscar para poder oferecer um serviço digno a pessoas que nunca tiveram acesso a esse tipo de privilégio?

Logo em seguida apareceu o segundo texto, sobre um tal ‘Banco de Tempo‘. Curiosa, fui ver do que se tratava. Resumido de uma forma muito simples, trata-se de um banco, que existe em Portugal há 15 anos, cuja moeda de troca é o tempo, medido em horas (nada de dinheiro nas transações!). Funciona assim: pessoa ‘X’ quer oferecer horas da sua vida fazendo algo que sabe e gosta; pessoa ‘Y’ precisa daquilo que a pessoa ‘X’ sabe fazer, mas não tem nada de que a ‘X’ precise (o que seria a lógica da permuta). Se as duas estiverem cadastradas no Banco de Tempo, o banco cruzará suas informações e ambas poderão ficar satisfeitas: a pessoa ‘X’ prestará em horas o que a pessoa ‘Y’ necessita, ficando com um crédito de horas para si; e a pessoa ‘Y’ receberá o ‘serviço’ prestado, ficando com um débito de horas, que somente podem ser pagos com horas. A qualquer momento a pessoa ‘X’ poderá se beneficiar de serviços ou necessidades de outras pessoas cadastradas no banco, assim como a pessoa ‘Y’ poderá ser solicitada a ajudar qualquer outro membro do banco.

Complicado? Vou exemplificar. Sou arquiteta e decido oferecer 5 horas mensais (um começo, tá?) de serviços de arquitetura e comunico ao banco. Paralelamente ou em outro momento, decido que quero fazer aulas de espanhol. Também comunico ao banco. O banco, através do seu cadastro, localiza alguém que precise de serviços de arquitetura e outro alguém que dê aulas de espanhol, e a(s) troca(s) acontece(m). Pode ser até que as duas coisas estejam reunidas na mesma pessoa, mas isso tanto faz. Com o tempo, caso fosse interessante, eu poderia aumentar o número de horas disponíveis ou até mesmo oferecer horas para fazer outros pequenos serviços – como cuidar de crianças pequenas, lavar carro, passar roupa, cozinhar, ir ao supermercado, ligar pra net, ser motorista, ou simplesmente fazer companhia para alguém que se sinta sozinho. Ou seja, eu poderia colocar qualquer coisa que tivesse disponibilidade de fazer, em troca do que eu sentisse necessidade de receber. Ao banco caberia ajudar a encontrar pessoas com quem eu pudesse fazer as trocas, utilizando as horas despendidas como moeda.

Achou loucura isso? Eu não achei. Três aspectos do Banco de Tempo me ‘fisgaram’ e fizeram com que eu terminasse de ler a matéria emocionada – sim, com lágrimas nos olhos mesmo -, por imaginar que é possível uma economia fora da lógica do lucro, do individualismo, do ‘ser mais que o outro ou tirar vantagem sobre o outro’. Digo que é possível pois, como já disse lá em cima, o banco existe há 15 anos!

Primeiro, o banco é uma possibilidade de cruzar vidas, histórias, experiências. Ele conecta pessoas com as quais nem se imaginaria poder haver conexões. Você não necessariamente vai permutar com alguém que faça parte da sua rede. Você joga sua oferta, joga sua procura, e o banco cruza de quem e para quem você tem possibilidade para despender e receber tempo. Não é muito legal isso? Minha cabeça pirou com as trocas possíveis! E claro, com as trocas possíveis além das necessidades iniciais, a partir do momento que você usa a troca como uma forma de conhecer outras pessoas e ampliar sua rede. Imagino que quem entra numa proposta dessas, está muito mais aberto e desbloqueado a construir novas relações; e fico imaginando o tanto de humanidade que vivenciar essas trocas deve trazer para a vida das pessoas! Achei lindo demais!

O segundo ponto é a equidade: toda e qualquer atividade tem o mesmo valor, medido por horas investidas. Escolhi a palavra atividade porque vale tudo a que você quiser se dedicar: desde ensinar a andar de bicicleta (exemplo presente no texto) até realizar uma consulta médica. Conforme o texto: “Uma hora de jardinagem é igual a uma hora a cuidar de uma criança. Uma hora a conversar é igual a uma hora a arranjar uma persiana que se partiu.

Não há serviços mais valiosos do que outros”. Estamos falando, então, de dignidade igual para todos. E, nesse aspecto, penso que a proposta é bem inovadora, pois foge completamente à lógica do mercado. “Como assim meu trabalho vale o mesmo que outro?”

Pergunta: alguém consegue explicar por que um trabalho é considerado mais digno e consequentemente mais remunerado que outro, se todos investem a mesma coisa – TEMPO – para realizá-lo? Será que rola desconstruir isso? (Já estou imaginando aquele papo de que a razão de um trabalho ‘valer’ mais do que outro é muito complexa, envolve o tempo de preparo, os estudos, subjetividades, o empenho que uma pessoa levou para conquistar seu espaço, etc e tal.. então eu pergunto: e por que mesmo um professor ganha tão mal?). A equidade anula as desigualdades geradas por falta de oportunidades e privilégios, problema sistêmico da nossa sociedade.

O terceiro ponto, que pra mim é tão impactante quanto o segundo, é o seguinte: ninguém pode ter débito ou crédito acima de 20 horas. Ou seja, não se pode acumular, nem pra cima nem pra baixo. Não há essa possibilidade, simples assim. Você usou horas, precisa retribuir; você prestou horas, precisa ‘consumir’. Assim as trocas vão acontecendo permanentemente e ninguém acumula vantagens ou desvantagens em relação a ninguém.

O que vou falar agora talvez gere certa polêmica, mas quando li essa matéria pensei muito no Maternativa. Sinto que numa rede como a que temos é muito possível começar a desconstruir essas questões. Não é a toa que o Banco de Tempo, em Portugal, foi criado por uma organização de mulheres. Somos uma rede onde todas, a priori, temos um valor comum que é a criação dos filhos. Uma rede onde sabemos o quanto o tempo de uma mãe é precioso, independente de qual seja nossa atividade. Pensado assim, não fica óbvio que nosso tempo deva realmente valer o mesmo? Rolam vários posts e discussões no grupo sobre precificação, competitividade, valorização profissional, mercado desigual, sobretudo em relação a serviços, e penso que é muito difícil estarmos sujeitas aos valores de um mercado que não contempla, ou melhor, que simplesmente ignora a nossa realidade.

Também lembro que em meados de março rolou uma discussão a respeito de privilégios e pensei que essa poderia ser uma forma de começar uma desconstrução de paradigma. É claro que o mundo não vive essa lógica e talvez não seja tão simples adotar práticas nesse sentido. Mas a mudança pode ser feita aos poucos, com pequenas atitudes de cada um. Volto à situação inicial, em que eu descrevia minhas investigações sobre como tornar meus serviços mais acessíveis a uma parcela da população que não tem acesso. Pensado nessa lógica, imaginei trocar por tanta coisa! Até mesmo quem desenvolve produtos, o que num primeiro momento me pareceu mais complicado, poderia se beneficiar com isso. Digamos que eu confeccione brinquedos artesanais e leve 5 horas para fazer cada brinquedo. Ao contabilizar as horas trabalhadas no valor final do produto, a venda torna-se inviável ou muito restritiva. Qual a lógica do mercado?

Diminuir o valor do produto, ou melhor, da minha hora de trabalho. Mas não é justo, não é mesmo? Utilizando a lógica do Banco de Tempo, eu poderia cobrar os custos de material e trocar as 5 h trabalhadas por horas de cuidados com meu filho (durante as quais eu possa produzir mais, dormir, sair pra comprar material ou responder e-mails); cuidados com a casa; consultas médicas, odontológicas, massagens; consultoria financeira; consultoria de marketing; organização do material de divulgação; transporte e translado; e por aí vai…

Vejo que na rede rolam trocas direto, e achei super bacana a iniciativa do Materna Exchange. E se começássemos a utilizar esse critério – do valor de hora trabalhada igual para todo mundo – para nossas práticas de permuta? Fiquei com muita vontade de experimentar essa desconstrução de valores… Quase tudo o que conhecemos envolve dinheiro, ou utiliza o dinheiro como parâmetro. Como seria essa mudança de moeda? E olha.. se alguém topar fazer umas práticas pra quem sabe virar alguma coisa, eu super topo! Bora lá?

Rute Bersch

Rute Bersch, 39 anos, arquiteta-urbanista e mãe. Junto com o filho Otto, tem aprendido a olhar o mundo e se inspirar todos os dias.

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