[Ins]pirações #6 . O que eu faço me representa?

* Por Rute Bersch

A expressão ‘me representa’ é usada para dizer ‘essa pessoa faz o que eu faria’, ou ‘diz o que eu diria’, ou ‘admiro/curto/assino o que essa pessoa manifesta’. E tenho a impressão de que há uma vontade-necessidade crescente de as pessoas mostrarem ‘quem’ e ‘o que’ as representa. O convite-a-pensar que quero fazer hoje é: ‘eu me represento?’. Ou talvez, para ser menos cobrança – uma vez que nós mães já fazemos isso demais –, ‘eu consigo me representar?’.

Muitos podem ser os motivos para que não consigamos, na prática, bancar tudo o que pensamos ou acreditamos. Pra começar, falta de tempo para ler e se informar; falta de coragem para se posicionar; falta de espaço ou oportunidade no ambiente de trabalho; falta de apoio dos amigos, companheiros, familiares; falta de vontade para entrar na briga; descrença de que nosso posicionamento fará diferença no mundo; enfim, falta de muitas coisas.. Mas, é fato, quanto mais próximos estivermos daquilo que acreditamos, mais felizes e realizados estaremos. E isso dá prazer – tesão, mesmo! – de fazer; e prazer é o melhor combustível para a produtividade, para continuar fazendo e buscar mais!!

A maternidade é um momento de parada para a grande maioria das mulheres. Em termos de Brasil, grande parte delas só têm a possibilidade de parar por 4 meses – período básico garantido por lei – ; e algumas nem isso.. Algumas conseguem negociar mais alguns meses, outras decidem parar por tempo indeterminado. Mas, o fato de podermos parar nesse momento (algo que aqui não acontece com os homens, pois a licença paternidade é reduzida), associado a tudo o que a maternidade promove e provoca em nós a partir do momento que nos vemos responsáveis por outro ‘ser-no-mundo’, muito comumente desencadeia um processo de repensar a vida, os valores, as necessidades (nossas e dos filhos), os prazeres, e também – por que não? – nosso trabalho.

O empreendedorismo materno é uma alternativa de trabalho crescente, que permite que estejamos mais próximas dos nossos filhos e atuantes profissionalmente. De um lado, porque ‘apenas maternar’ é uma atitude muito pouco aceita nos nossos tempos (coloco entre aspas, pois somente quem já passou por essa experiência em período integral sabe o quão intenso é o maternar, e o quão difícil é perceber que essa escolha possa ser entendida como um ‘fazer somente isso’ pela sociedade). De outro lado, muitas mulheres desejam se manter ativas, mas o mercado tradicional lhes nega a possibilidade de maternar e trabalhar de forma integrada. Portanto, investir tempo e dinheiro no próprio negócio tem sido uma opção para grande parte das mulheres que deseja estar mais presente na criação dos seus filhos.

Nesse contexto – de revisão de valores e de busca por uma alternativa de trabalho -, mulheres descobrem que nunca fizeram algo que realmente fizesse sentido para elas; mulheres reafirmam seus anseios e se fortalecem, e até mesmo reinventam seus negócios; mulheres deixam de fazer o que gostam para se adequar à nova realidade; mulheres mantêm tudo como está pois não conseguem encontrar outra solução; mulheres encontram novos significados para o que desejam para si e para os seus filhos… Mas uma coisa percebo comum entre a maioria das mulheres com quem convivo: depois da maternidade, fica mais difícil tolerar situações onde exista incompatibilidade de valores, pelo simples fato de querermos um mundo mais alinhado com eles para viver com nossos filhos e filhas.

Sem distinguir nossas realidades, lanço hoje algumas perguntas:

– O que eu sou – o que realmente significa para mim – basta sendo hobby, ou faz tanto parte de mim que precisa ocupar todo o meu tempo disponível?

– Quais as situações, no meu ambiente e nas minhas práticas profissionais, em que sinto que não estou conseguindo me realizar por estar abrindo mão do que eu acredito?

– O que eu posso fazer hoje, no meu trabalho, para me aproximar dos valores que fazem sentido para minha vida? Como eu posso mudar a relação que tenho com meu trabalho?

Quando o desconforto for muito grande, abrir mão do trabalho – ou de um trabalho específico – pode ser uma boa alternativa. Apesar de enxergarmos como uma coisa ruim, abrir mão de trabalhos que não nos satisfazem libera tempo, energia e disposição para buscarmos outros com o qual teremos mais afinidade. Ser empreendedora permite que tenhamos mais flexibilidade para fazer essas escolhas, mas isso não significa que, como colaboradoras de um negócio, não tenhamos o direito de nos posicionar. Trabalhar de forma alinhada com aquilo que acreditamos e, também, explicitar o que rejeitamos, resulta no empenho coerente e na satisfação genuína, verdadeira. E não deve haver nada mais prazeroso do que nossos filhos nos enxergando como seres realizados, aprendendo de perto o que é acreditar no que se faz. Podemos dar a eles uma bela referência de vida!

Rute Bersch

Rute Bersch, 39 anos, arquiteta-urbanista e mãe. Junto com o filho Otto, tem aprendido a olhar o mundo e se inspirar todos os dias.

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