[Ins]pirações #7 . Dois pontos fundamentais para o empreendedorismo materno dar certo

Por Rute Bersch*

Em um dos Cafeínas MTT organizados pelo Maternativa, o relato de uma mãe sobre seu momento de começar a empreender chamou à minha atenção. Diferente da maioria das histórias que ouço de mulheres que empreendem após a chegada dos filhos – ou mesmo as que seguem com os empreendimentos que já tinham -, no caso dela, houve um planejamento dos parceiros sobre ‘o que’ e ‘como’ cada um teria que mudar em sua vida e sua rotina para que a ideia da empresa saísse do papel – ou da cabeça.

Quando se fala sobre as mudanças que a chegada de um filho acarreta, geralmente o foco está na mulher. Na mãe. E se a abordagem for profissional, mais ainda. É a mulher que precisa se reinventar – e se reinventa! -, repensar sua vida – e repensa! -, escolher entre carreira e filhos – e cada vez mais escolhe os dois! A literatura e a internet trazem muitos exemplos e reflexões a respeito desse tema. E quanto aos pais?

Sim, há um contexto bastante recente de inserção das mulheres no mercado de trabalho, conquistado bravamente, e talvez por ser ‘novidade’ ainda não esteja muito claro para os homens – e para o mercado – que o papel deles também precisa de reformulação. O passo à frente que ainda precisa ser dado, além da inserção das mulheres, é a sua aceitação e inclusão efetiva no mercado, a partir de políticas públicas que garantam equidade de oportunidades e condições de trabalho para homens e mulheres. Pois sabe-se que não há.

Cuidar de uma criança é tarefa essencial para o futuro da humanidade! ‘O começo da vida’ é um documentário muito preciso sobre esse tema, que todos deveriam assistir para entender que, além dos pais e mães, toda a sociedade deve zelar por uma infância amorosa e bem assistida. E a presença, sobretudo nos primeiros anos de vida, tanto do pai quanto da mãe, é fundamental para o processo de formação da criança, do ser humano. Mas o mercado de trabalho ignora essa informação essencial e pune ambos. A punição da mulher é a redução de oportunidades (e de salários!), a não ser que ela abra mão e terceirize os cuidados dos filhos; a do homem é ser excluído da possibilidade de acompanhar de forma presente a vida dos filhos.

Para conseguir conciliar criação dos filhos e trabalho, investir num empreendimento próprio tem sido uma escolha consciente e crescente de mães, e algumas vezes de pais. E para que essa escolha seja efetiva, no contexto do que foi apontado acima, dois pontos merecem atenção especial:

1. A escolha por empreender deve ser uma decisão conjunta e não individual. Não estou dizendo que os dois precisam abrir um negócio juntos, mas os dois precisam ‘estar juntos’ no momento da decisão para que ela se concretize. Os dois devem entender que, para que o negócio dê certo, ambos precisam rever seus ritmos de vida, abrir mão de tempo individual em prol do outro, elaborar estratégias conjuntas para que ambos possam se realizar como pais/mães e como profissionais. Isso requer empatia, respeito, companheirismo e principalmente revisão de valores. Não adianta aquele papo de ‘Legal, vai fundo que te apoio!’. O ‘te apoio’ significa ‘acho que hoje posso abrir mão daquela reunião para que você possa realizar a sua’, ou ‘vou negociar na empresa para trabalhar home office duas vezes por semana para que você possa sair para agilizar o seu negócio’. E por aí vai..

2. Os cuidados com a casa e com os filhos devem ser compartilhados de forma equilibrada. Se o primeiro ponto exige uma postura diferente em relação ao mercado patriarcal, esse requer uma desconstrução de toda carga machista que existe na cultura doméstica, do ‘naturalmente mãe’. (Para quem quiser entender mais, indico o texto que compartilhamos na nossa fanpage: ‘Ser pai, um ato político’). O fato de a mulher poder trabalhar não pode significar que ela esteja ainda mais sobrecarregada, cuidando sozinha de praticamente todas as funções da casa e da criação. Portanto, esse ponto requer muito diálogo, muito pensar, muita vontade e um planejamento doméstico claro e prático de como as tarefas serão divididas.

Não quero excluir com esse texto as Mães Solo, que não contam com essa ‘parceria’ na hora de optar por empreender. Acho que o principal desafio, nesse caso, é a desconstrução do papel de ‘pai provedor’, que trabalha duro para bancar a vida do filho (e da mulher, como muitas pessoas acreditam) e que eventualmente fica com a criança pois durante a semana não tem tempo disponível. É muito difícil falar do que não se vive, mas eu arriscaria dizer que para essas mães, além de exigir co-responsabilidade na criação, ter uma rede de apoio é fundamental. Para ter horas disponíveis para trabalhar, para dividir as tarefas da casa e para o apoio emocional que todas precisamos.

Bonito tudo isso, mas e na prática?? Quase impossível, né?? Depende de como encararmos: ‘quase impossível’ pode ser ‘um pouco possível’; e de pouco em pouco, quem sabe a gente não vai conseguindo equilibrar mais essa balança?!?!

Rute Bersch

Rute Bersch, 39 anos, arquiteta-urbanista e mãe. Junto com o filho Otto, tem aprendido a olhar o mundo e se inspirar todos os dias.

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