Creche, direito básico

O filho de Katharina Mahrt tinha apenas alguns meses de vida quando ela começou a frequentar rodas de conversas de mães e bebês em Berlim durante a sua licença parental. Lá, conheceu algumas das mulheres mais inspiradoras com quem já havia cruzado: profissionais bem-sucedidas, mulheres em cargos de chefias, mães que cuidavam de 3 ou 4 filhos sozinhas. Em comum, todas tinham uma coisa: estavam completamente desesperadas porque não conseguiam encontrar uma vaga na creche para seus filhos pequenos no sistema educacional de Berlim, na Alemanha. E mais: todas elas – mulheres capazes, inteligentes, organizadas – achavam que a culpa era delas.

Katharina não queria acreditar naquilo. Ela tinha certeza que todas aquelas mulheres admiráveis não haviam falhado na hora de achar uma creche para seus filhos – mas que havia algo de errado estava no sistema. E ela tinha razão. Faltam 270 mil vagas em creches na Alemanha – 10 mil só em Berlim. Não há educadores o suficiente para trabalhar nas que já existem. A situação é tão desesperadora que é comum encontrar anúncios em fóruns onlines de pais oferecendo recompensas de até 5 mil euros (23 mil reais) para quem encontrar uma vaga para seus bebês.

Katharina também sentiu na pele o tamanho da encrenca. Na primeira creche que tentou matricular o filho, recebeu a resposta de que já havia 400 crianças na fila de espera. Em outra, ouviu que só haveria vagas dentro de 3 anos. Ela passou por mais de 40 escolinhas antes de desistir. “Àquela altura, eu já estava completamente furiosa”, diz ela.

Foi assim que Katharina e mais um grupo de mães resolveu criar o movimento KitaKrise (crise das creches) na capital alemã. Juntas, organizaram uma manifestação que foi capa de todos os jornais da capital. “Todo mundo sabia que havia esse problema em Berlim, mas ninguém estava querendo dar a cara a tapa. Quando começamos a nos movimentar, a imprensa já estava pronta para fazer barulho – e eu acabei sendo a história que eles estavam procurando”, diz ela. O KitaKrise também juntou centenas de cartas de crianças com seus pedidos de Natal – uma vaga na creche – e despejaram tudo no gabinete do prefeito. Fizeram tanto barulho que os políticos locais começaram a evitá-las.

No fim, Katharina só conseguiu um lugar para seu filho depois de processar o Estado – quando a vaga apareceu milagrosamente dentro de 6 semanas. Seu filho já estava com quase 2 anos. A prefeitura de Berlin prometeu fornecer milhares de novas vagas até o fim do ano que vem. Katharina Mahrt vai estar de olho.

@karinhueck é jornalista e escritora, e pesquisando licença parental na Universidade Livre de Berlim

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