Reproduzir a espécie dá um trabalho danado

Até completar 2 anos de idade, uma criança vai comer 4.530 vezes e tirar 1.995 sonecas. Vai tomar 720 banhos, trocar 1.260 vezes de roupa e usar 4.100 fraldas. Vai visitar o médico pelo menos 15 vezes e tomar 22 vacinas. Nos primeiros meses de vida, um bebê não come, não dorme, não brinca, sequer segura a própria cabeça sozinho. Ele precisa de companhia 24 horas por dia, e que alguém esteja à disposição de dia, de noite, de madrugada, incansavelmente. E todas as pessoas que já andaram sobre esse planeta – de Cleópatra ao Papa Francisco, de Albert Einstein a Pabllo Vittar – só puderam chegar à vida adulta porque alguém abriu mão de muitas horas de sua vida para se dedicar aos cuidados delas. É o trabalho reprodutivo não remunerado. 

Em termos bem simples, trabalho reprodutivo é todo aquele tipo de atividade feita para garantir a sobrevivência da espécie: gerar, parir, amamentar, alimentar, ninar, velar, educar etc. Ele é conduzido dentro dos ambientes domésticos e, historicamente, acabou atribuído às mulheres. Dentro dos arranjos tradicionais, é como se houvesse acontecido uma especialização do trabalho: os homens ficaram responsáveis por encontrarem o “sustento” fora de casa e as mulheres por preservarem as condições de conforto e para a vida. 

Por acontecer dentro do lar e por parecer inerente à condição humana, a parte que ficou com as mulheres é muito pouco valorizada – e, a não ser que seja terceirizada, raramente é remunerada. Ou seja, justamente porque é feito por mulheres, não vale nada. É por isso que se diz que uma dona de casa que passa o dia cozinhando, lavando, dando bronca em filho, marcando horário com o encanador e levando bebê no médico “não trabalha”. Olha a loucura disso.

Para piorar – e principalmente no Brasil – a solução mais comum para a situação costuma ser feita contratando outras mulheres para fazer o serviço doméstico. Geralmente são outras mulheres, pobres, negras, em situações fragilizadas, que vêm de bairros distantes e deixam suas próprias famílias, para arcar com uma parte do trabalho reprodutivo.

A solução, é claro, seria dividir o trabalho do lar entre todos os membros da família, homens, crianças, mulheres. Outra opção – e a que vejo ser muito comum aqui na Alemanha – é normalizar um outro estado de arrumação (risos). As casas por aqui não são tão organizadas quanto no Brasil. Os banheiros não brilham de limpeza. A maior parte das janelas que vejo por aqui nunca foi lavada. Só assim para começar a valorizar essa montanha de serviço invisível que é o trabalho reprodutivo não remunerado.

@karinhueck é jornalista e escritora, e pesquisando licença parental na Universidade Livre de Berlim

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