A semana de 30 horas

Circulou pelas redes nas últimas semanas a reclamação de um americano com o fato de que é completamente impossível manter um emprego de 40 horas semanais, comer comida caseira, manter a casa limpa e organizada, exercitar-se, e participar da reunião de pais e mestres da escola sem enlouquecer. Realmente, é impossível ter tudo isso ao mesmo tempo justamente porque o trabalho de 40 horas semanais foi inventado pressupondo que haveria uma outra pessoa dentro de casa cuidando do resto, fazendo o trabalho reprodutivo não-remunerado. Em outras palavras, a jornada de 40 horas funciona bem para um homem casado com uma mulher que não trabalha. 

Se você mora sozinho e tem um emprego de 40 horas, já deve ter sofrido para, por exemplo, consertar o chuveiro que queimou – a assistência técnica, afinal, só passa no horário comercial. E como fazer para manter uma vida saudável, que inclua uma passada na academia seguida por um jantar caseiro? Que horas que devemos ir no supermercado e começar a cozinhar? E o que dizer do filho doente que não pode ir para a escola? É impossível cumprir uma jornada de 8 horas nessas condições.

Foi para discutir esses problemas insolúveis que conversei outro dia com uma economista alemã que bolou um modelo de trabalho com horários reduzidos para pais, que seria acrescido de um incentivo financeiro que viria do governo. Katharina Wrohlich, do Instituto Alemão de Pesquisas Econômicas (DIW, na sigla em alemão), chama esse de “o modelo dos dois provedores”. Nele, casais que optassem por diminuir a carga de trabalho para 30 horas semanais cada um, receberiam uma espécie de “bolsa-meio período”. Ou seja, um valor em dinheiro que seria dado para famílias que tentassem dividir os trabalhos domésticos e com os filhos de forma igualitária. A ideia é compensar a diminuição do salário que viria com a jornada reduzida.

“O ponto central dessa proposta não é incentivar o emprego de meio-período, porque sabemos que quando isso acontece são apenas as mulheres que acabam trabalhando menos e assumindo o trabalho doméstico. O importante nesse caso é dar incentivo financeiro apenas para aqueles casais em que ambos tenham jornadas reduzidas”, disse Wrohlich. De acordo com ela, esse modelo ainda não foi testado em nenhum país. Não custa sonhar, não é mesmo?

@karinhueck é jornalista e escritora, e pesquisando licença parental na Universidade Livre de Berlim

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