Muito trabalho, pouco tempo e julgamentos. Lidando com a famosa culpa materna

A culpa faz parte do dia a dia da nossa maternidade, isso é fato. Infelizmente, cobram de nós uma força fora do comum nos nomeando de “guerreiras” por passar por situações que uma bela rede de apoio resolveria, mas sabemos que não é bem assim.

Independente se você é empreendedora ou assalariada o demoninho da culpa vem no seu ouvido e te cobra por coisas que você sabe que é muito difícil de cumprir, ou pelo menos, tenta ao máximo que são as ausências e o quanto isso martela todos os dias não só interna, mas externamente e também através de julgamentos.

Se você trabalha fora, passa o dia todo longe, às vezes não dá tempo de ligar e saber como a cria está e quando isso acontece, nossa, parece que mundo vai desabar e nós questionamos toda aquela situação. A mesma coisa com quem trabalha em casa. Você fica dividida entre dar atenção pro seu filho ou responder aquele e-mail de uma compra ou fechar negócios com o fornecedor, é “ô mãeeee” pra cá, pra lá, mas quando pegamos o embalo da coisa, a culpa da ausência vem, mesmo estando perto perto da cria o dia todo, mas sem conseguir cumprir toda a demanda de atenção que ela quer. E dói, né?

A Tainá Moreira, mãe solo e que toca sozinha a confeitaria Lilás e Groselha Doceria, sabe bem, como todas as mães empreendedoras, o que é passar por esse processo de culpa que aflige desde sempre. “Eu sinto culpa o tempo todo, sinto culpa por ter deixado meu emprego quando ele nasceu, por conta disso passei por muita humilhação em ser ‘só dona de casa’, abusos psicológicos e financeiros, sinto que se eu tivesse continuado trabalhando poderia ter dado uma vida melhor pra nós, mas também me sentiria culpada tendo que deixar um bebê de 4 meses na creche 10h pra trabalhar.”

Além de tudo, ter de lidar com julgamentos alheios também faz parte dessa bagagem que muitas nós carregamos. Para a Psicóloga Beatriz Ferreira Pinto, especialista em atendimento a mulheres, “quanto maiores as cobranças, mais culpa sentimos.”

Quando não se tem totalmente uma rede de apoio, essa dificuldade se torna cada vez maior como conta Taina: “não posso passar muito tempo fora de casa, moro num lugar muito longe de onde meu público realmente está, já tentei vender brigadeiros na rua, mas fui um dia e ouvi horrores por ‘abandonar meu filho sem motivo e fazê-lo sofrer’”.

“A idealização da função materna coloca essas mulheres numa posição de cumprimento de supostos deveres, na maioria das vezes, generalizados, inconsistentes e cruéis, fugindo do olhar compreensivo que respeita a individualização. Assim, numa espécie de perseguição moral, as mães são observadas, julgadas e criticadas por suas atitudes que deveriam seguir à
perfeição, gerando o sentimento de culpa constante por não corresponder ao esperado.” conta a especialista.

Lidando com a culpa

Mas, como lidar com a culpa e julgamento da família, amigos e parentes? Não tem uma resposta pronta nem uma fórmula mágica para lidar com isso, mas podemos nos organizar entre mulheres que passam pela mesma situação, trocando histórias, conversas, ideias e tentar firmar essa parceria (não só comercial) de rede de apoio, afinal, se não nos apoiarmos, quem vai? Repensar seus limites e não se comparar a outras vivências também é essencial. “Lidar com a culpa de forma sadia é reconhecer as expectativas às quais está influenciada e se colocar disponível a repensá-las. Caso sinta a culpa, reflita e lhe permita agir de forma consciente e sensível na compreensão de seus próprios limites, possibilidades, ações e reparações”, destaca Beatriz.

Sabemos que o tal “não se sinta culpada”, não são palavras de solução para os problemas que todas nós enfrentamos diariamente como mães, empreendedoras e assalariadas, mas saber que está fazendo o seu melhor para sustentar sua casa, seu filho e fazendo por você e por ele para dar um futuro melhor, pode ser um caminho. Não precisamos carregar essa culpa todos os dias, ela não faz parte de nós, ela foi imposta.

Por isso, é essencial não romantizar o sofrimento, as noites mal dormidas colocando isso como fórmula de sucesso para o seu empreendimento e rendimento no trabalho, se cuidar é ver que por mais que tudo faça parte do seu dia, você não é isso. Não, essa não é uma sessão de coach, mas palavras de uma mãe que passa todos os dias pelos mesmos questionamentos, que chora quando acha que está indo tudo errado, mas que se apega a história iguais as dela e entende que isso é enraizado e que aos poucos, estamos tentando mudar. Não se culpe.

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Jo Melo, é mãe do Juan, pesquisadora e profissional de Marketing. Ativista pelos direitos das mães e contra a romantização da maternidade, luta por uma sociedade mais justa para mulheres e seus filhos, ama plantas, detesta
julgamentos. É fundadora da Revista Mães que Escrevem.

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