Mães incríveis

Esses dias uma mulher que vai ser mãe me perguntou em uma sessão de terapia: “como ser uma mãe incrível?”. Na hora eu vi um filme na minha cabeça dos 14 anos que tenho como mãe. Tive muitos sentimentos confusos sobre minha ideia de ser incrível.(RSSSS)

Depois comecei a pensar nos 20 anos de experiência no acolhimento materno e não deu outra: comecei falando que mães incríveis, são as que vivem a maternidade real e, que muitas vezes, também choram em silêncio, mas em suas fotos nas redes sociais mostram uma pequena parte de uma maternidade idealizada.

A maternidade real é o que acontece quando ninguém está lá para ver; quando não há ninguém para julgar as roupas, o cabelo, a maquiagem, a decoração da casa ou para garantir que os filhos amados sejam “bem comportados”. A maternidade real acontece depois de um dia de trabalho,em casa ou fora dela; depois de pegar as crianças na creche. Ela acontece em cada birra de 20 minutos. A maternidade real mostra sua cara quando estamos cozinhando (quando, na verdade, queríamos poder pedir um fastfood para todo mundo!). Não só isso, ela se mostra quando estamos limpando a casa, dando banho e segurando um filho nos braços enquanto tentamos acalmar o outro.

Depois disso tudo, ela aparece com o sentimento de derrota e de sobrecarga, misturando-se a um sentimento incomparável de amor, de querer fazer o melhor sempre para seus filhos e de nunca falhar. “Talvez nesse ponto devo fazer uma pausa para te dizer: é a falha que te torna humana. Isso é real! Então respire fundo e tenha calma, porque você está indo bem!”.
A mãe real precisa de um minuto de silêncio, porque a maternidade a mudou de várias maneiras. Esse silêncio a ajuda a elaborar essa mudança. Mas além disso, a mãe também precisa parar para respirar ,recuperar as forças e continuar na lista de coisas a fazer. Aí, de repente, as mães reais também têm momentos na maternidade nos quais o tempo parece parar. É quando parece que o resto do mundo desaparece e ela pode admirar o filho. Mesmo que esses momentos de silêncio, pausa e contemplação sejam raros ao se ter mais de um filho, tenha certeza de que eles acontecem. Esse momento é maravilhoso, pois apaga o caos do mundo; diminui o volume interno do medo que se tem de que tudo dê errado. É nesse instante, que as mães podem se dar conta de que essas pausas para o descanso e desligamento do mundo são especiais e sagrados, porque a maternidade real não é o tempo todo dura de se viver, ela também é feita de risos.

Tenho visto muitas mães sendo todas as coisas para todas as pessoas o tempo todo. De alguma forma deixam suas próprias necessidades caírem pelo caminho. Talvez a esperança para a solução desse problema esteja no auto-cuidado, porque cuidando com o que se tem e com que é possível, as mães podem ganham paciência, energia e paixão. É claro que também vejo que essas mães precisam de uma rede de apoio para sair desse deserto, que ora é frio ora é quentinho e quase sempre solitário.

Mas voltando a pergunta inicial: como ser uma mãe incrível? Minha resposta é: Mães reais são incríveis em sua perfeita humanidade, e embora pensem que terão que ensinar sobre o mundo aos seus filhos, acabam descobrindo que são os filhos que vão ensiná-las sobre esse novo mundo.

 

Monica Pessanha é psicanalista de crianças, adolescentes e mães, palestrante, coautora do livro EDUCANDO FILHOS PARA A VIDA e colunista na revista CRESCER. Mãe da Melissa, uma menina que ama ler. É o tipo de mãe que acredita que enquanto os filhos crescem, nós crescemos também.

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