A maternidade muda a vida. E a aldeia?

Sem duvida, minha mãe foi meu primeiro exemplo de maternidade. Até me tornar uma mãe, nunca parei para pensar no quanto ela investia para garantir que fôssemos alimentados, vestidos e protegidos. Eu cresci assistindo ela cozinhar para nós quase diariamente – mesmo com um trabalho exigente em tempo integral. Ela dormia tarde e acordava cedo, mas não me lembro dela reclamando, embora eu duvido muito que não reclamasse da jornada dupla. Eu nunca pensei sobre o que isso fazia com ela mentalmente, lançando-se totalmente aos cuidados de sua família sem ter tempo para si mesma e sem ser vista e cuidada pelos outros. Quando eu tive minha filha, seu exemplo estava estampado em minha mente e eu me vi seguindo seus passos. Trabalhando muito com uma criança pequena na cozinha me vendo cozinhar.

Eu não percebi que estava ficando vazia, até que eu tive uma crise de choro no banheiro. Foi aí que pensei que minha mãe deve ter chorado muitas vezes no banheiro. Mães choram em silêncio, mas também choram no banheiro e na frente dos filhos. Uma montanha russa de emoções! Na verdade, para muitas mães, as tarefas vão chegando e de repente parecem que se transformam “Na” montanha russa, e quando essa cai dramaticamente montanha a baixo, não tem capa de Supermãe que as faça pairar no ar com leveza e sem culpa.

As mães estão sempre cuidando de tudo e todos. Elas escutam “eu te amo” dos filhos,dos parceiros e de quem está ao seu redor. Mas de alguma forma isso não parece suficiente. Em vez de ouvirem essas coisas, poderiam ver situações do tipo : o bebê se acalmar no colo de outra pessoa! Ou ver que o jantar está pronto quando chega do trabalho. Ver alguém buscando o filho na escola para dar conta de uma reunião importante. Poderiam receber uma massagem em video no final de um dia em que os filhos estão catando os brinquedos e meias do chão. Quando as pessoas que amamos nos dizem eu te amo, isso é bom, pois aquece o coração, mas deixa eu te falar: ter um momento de silêncio, longe de preocupações, é muito melhor para as mães. Sabe o porquê? Esses momentos tocam a alma humana porque permite que escutemos a nós mesmas e a nossos sentimentos. Temos estampados em nossas camisetas agora que “é preciso uma aldeia para educar uma criança”, não que eu duvide disso, mas onde está essa aldeia quando as mães choram em silêncio descendo de suas montanhas russa? Eu sei, algumas já construíram suas próprias aldeias, mas no geral a grande maioria realmente não tem ninguém para segurar suas mãos na descida da montanha. Também sei que outras vão chorar porque precisam de ajuda, mas não estão pedindo. Não porque são orgulhosas, mas aprenderam que precisavam dar conta de tudo sem reclamar.

E é nesse ponto que precisamos humanizar as mães. É preciso humanizar as mães, de novo: é preciso humanizar as mães (repita como um mantra). Torná-las visíveis da forma que são, e tendo em mente que não são fracas por sentir as coisas profundamente. Elas são fortes, são mães, são dignas. Seus filhos estão felizes e são amados.

Sei que ainda vão ouvir das pessoas o “eu te amo” e o “porque você está chorando”(reclamando), mas o que essas pessoas não sabem é que o silêncio fala mais que palavras quando está carregado de generosidade. No entanto, se ainda assim for difícil de compreender, digo que as mães choram e sentem que a carga é pesada e difícil porque :

A maternidade muda a vida, mas isso não significa que quem elas são devam desaparecer completamente. Precisam ser olhadas, cuidados e precisam de tempo para respirar, para se alimentar, para tomar banho, sair com as amigas. Precisam de sexo, de carinho e conversa(não necessariamente nessa ordem). Então se você for capaz de chorar com as que choram, a montanha russa vai parecer apenas uma roda gigante,com subidas e descidas, mas bem mais leve !

P.S.: esse texto é para você compartilhar com alguém de que precisa saber o que estar preso em sua garganta.

Monica Pessanha é psicanalista de crianças, adolescentes e mães, palestrante, coautora do livro EDUCANDO FILHOS PARA A VIDA e colunista na revista CRESCER. Mãe da Melissa, uma menina que ama ler. É o tipo de mãe que acredita que enquanto os filhos crescem, nós crescemos também.

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