Violência doméstica e isolamento social

A cada 2 segundos, uma mulher é vítima de violência verbal e a cada 2 minutos, vítima de arma de fogo, esses dados são atualizados a todo momento através do Relógios da Violência. Nós que somos mulheres, estamos cansadas de saber que a violência doméstica se tornou quase que rotina dentro de algumas casas. 

Quando o coronavírus chegou ao Brasil, as pessoas se assustaram com o número de mortes que o vírus causou e continua causando, longe de mim fazer a comparação de mortes, mas o ponto é levantar sobre a preocupação em relação a isso. Ficamos tão preocupados com a pandemia e não nos damos conta que só em 2019, 3.739 mulheres foram assassinadas, apesar desse número ter diminuído 14% em relação a 2018, eles ainda são altíssimos, isso porque estamos falando de homicídio, quando o assunto é feminicídio, o crescimento chegou a 7% em relação ao ano anterior, mais precisamente, 1.314 mulheres foram assassinadas pelos seus companheiros.

Enquanto estou escrevendo isso, 2.212 mulheres foram agredidas fisicamente, 708 ameaçadas de morte e 1.735 xingadas e humilhadas e, provavelmente, após terminar o texto, este número será bem maior. 

Segundo a advogada Gabriela Kermessi, especialista em Direito de Família e Sucessões, existem pequenos sinais de violência psicológica que muitas vezes não nos damos conta, “dependendo da fragilidade da mulher, ela acaba não percebendo os sinais que normalmente iniciaram há muito tempo. O agressor começa controlando pequenos pontos na vida da vítima como horários, roupas, amizades, gostos, comportamento, além disso, sempre se desculpa por erros justificando ser amor, cuidado e preocupação e também desqualifica a vítima rotineiramente usando xingamentos como feia, gorda, burra, sem mim você não é nada, não tem nada, não é ninguém, você não consegue, ninguém vai te querer”, afirma.

 

Com a pandemia e o isolamento social, muitas mulheres ficam em casa e convivendo com o agressor, infelizmente, sair para trabalhar e estudar, acaba sendo uma válvula de escape, mesmo que a violência fizesse parte da sua rotina, por estarem o dia todo no mesmo teto de um agressor, a tendência, infelizmente, é que a violência contra mulheres aumente.

Essa tendência é tão significativa, que recentemente, a ONU elaborou um documento com os possíveis efeitos do COVID-19 para as mulheres e um deles é o aumento em casos de violência doméstica. Segundo o documento, para muitas mulheres e meninas, a ameaça é maior onde devem ser mais seguras. Nas últimas semanas, à medida que as pressões econômicas e sociais e o medo aumentaram, vimos uma onda global horrível de violência doméstica. Em alguns países, o número de mulheres que telefonam para serviços de apoio dobrou.”.

No Rio de Janeiro, por exemplo, já se tem registros, houve aumento de 50% nos casos de violência doméstica, ainda não se tem dados das outras localidades, esse levantamento ainda será feito de modo geral.

Pressão psicológica e dependência emocional

Pedir ajuda nunca é fácil, muitas vezes, temos medo de ameaças e quando a maternidade está inserida nessa realidade, o temor é ainda maior principalmente por conta de toda violência psicológica em relação à criação dos nossos filhos. “Geralmente, o agressor diz à vítima que se ela o denunciar ou pedir divórcio, o mesmo vai à justiça pedir a guarda dos filhos, pega qualquer atitude ou comportamento desfavorável que a vítima teve de forma única, pontual e usa como fundamento”, diz a especialista.

Com isso, muitas mulheres não têm pra onde ir, sem rede de apoio e condições financeiras, acabam se submetendo a essa violência, “infelizmente ainda há uma grande parcela de mulheres que desistem de denunciar por dependência emocional e financeira também. Mas, atualmente, a grande maioria segue em frente mesmo com medo, com as perdas (que são gigantes); a revitimização que acontece desde o primeiro momento. Com apoio em todos os sentidos, muito carinho e respeito, elas vão até o fim, por isso, toda a ajuda é muito bem-vinda e falarmos sobre esse assunto pode dar possibilidades dessa mulher sair viva da situação”, afirma a advogada.

Por fim, existem algumas coisas que podemos fazer para ajudar mulheres vítimas de violência doméstica e a principal é: oferecer apoio. Quando vir uma mulher sendo agredida, denuncie! Se você tiver contato com uma vítima, ofereça ajuda a ela, criem códigos, se ofereça para ir até uma delegacia. Muitas vezes, essa mulher precisa de incentivo e saber que não está sozinha.

 

Onde pedir ajuda?

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Jo Melo, é mãe do Juan, pesquisadora e profissional de Marketing. Ativista pelos direitos das mães e contra a romantização da maternidade, luta por uma sociedade mais justa para mulheres e seus filhos, ama plantas, detesta julgamentos.
É fundadora da Revista Mães que Escrevem.

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