Entre fraldas, trabalho e identidade perdida

Quando a gente descobre que está grávida passamos a descobrir também que perdemos nossa identidade. Você não é mais a mulher super competente no trabalho, ou aquela que é muito boa nos negócios, as habilidades adquiridas durante toda vida passam por uma espécie de apagamento, é como se depois de dar a luz, ou adotar, nosso RG fosse trocado e em vez do nosso nome completo, a palavra “mãe” se repete inúmeras vezes: nome completo: mãe de pereira, tipo isso.

Ser mãe não é um mar de rosas e estamos cansadas de saber disso, vivemos na pele todos os dias o que é ser preterida em muitos espaços, ser vista apenas como a que “não dá educação” para os filhos pelo simples fato de serem crianças, aquela que é má mãe por  dar um pirulito, deixar no computador para poder estudar, ou aquela que não mora com a cria por inúmeros motivos. Somos sempre vistas com essa condição que nos assombra e faz tão mal. Lemos aquelas mensagens romantizadas de Instagram de que tal mãe consegue dar conta de tudo, ah, aquelas fotos lindas com crianças impecavelmente limpas e casa um brinco que dá até gosto de ver. Ah, aquela família margarina que é
instagramável, mas que não mostra a realidade nua e crua, o marketing nosso de cada dia mostrando o motivo de nos sentimos culpadas por tantas coisas.

Nossos aniversários nunca são os mesmos, se é que temos um. A conversa com os amigos já não têm a mesma empolgação porque os assuntos já não fazem parte da sua rotina e se você tenta inserir sua maternidade no papo, se sente pior por estar compartilhando algo que
aconteceu e que também deveria ser levado em consideração. Se vamos a qualquer lugar sozinhas sem nossos filhos, perguntas como “cadê seu filho?”, martelam em nossos ouvidos a cada loja visitada ou a cada copo de cerveja. Se vamos a um hospital, na escola ou casa da família, esquecem nosso nome e o “mãezinha” entra em ação nos provando mais uma vez que a nossa identidade saiu junto com a placenta.
Ouso dizer que, além de todas as desconstruções diárias e lutas da maternidade, ser mãe também é se reconectar. Além de tudo o que passamos diariamente temos o exercício de tentar encontrar aquela mulher que foi trancada numa caixinha e lhe roubaram os desejos, sonhos, vontades e lhe trouxeram fraldas e culpa. Por isso te pergunto: cadê aquela mulher que você era? Claro, nunca dá pra ser a mesma entre fraldas, trabalho e estudos, mas podemos olhar para dentro e abrir a tal caixinha que foi trancada a sete chaves.

Assisti esses dias a série “Super Mães” na Netflix, como toda série sobre maternidade, muitas romantizações e privilégios são claramente percebidos, mas o que mais me chamou a atenção e me fez lembrar é como a gente perde a essência. Uma das protagonistas (a Kate) é destaque na empresa onde trabalha, mas após dar a luz, se vê num beco sem saída em relação à conciliação trabalho e maternidade, ela é colocada na tal caixinha “mãe” e entre seios vazando leite, tenta mostrar que sua capacidade não vaza como eles. Me vi na mesma situação que ela e acredito que você também esteja, quem nunca após voltar da licença maternidade foi dispensada da folha de pagamento ou lembrada a todo momento que é mãe e sua competência jogada às traças por pessoas que esquecem que mães são mulheres? Acho que todas nós. Visto o grande número de mulheres que migram para o empreendedorismo materno.

Por isso, quero deixar um desafio aqui. Durante essa semana tente se lembrar das coisas que você sempre foi boa e as pratique. Eu sei que com a pandemia, filhos, casa, trabalho e estudos tudo junto e misturado é meio impossível pensar em outra coisa que não seja dar conta de tudo, por isso, é um desafio. Escreva algo que sempre gostou e pratique. Seja um vídeo de culinária, luta, dança, arte… seja o que for, tente, aos poucos, se reconectar e libertar aquela mulher que está aí implorando para sair, assistir uma série de madrugada também conta, afinal, esse pode ser o único momento onde todos estão dormindo e você, como sempre, fica se martirizando, planejando ou apenas chorando por não ser a mãe que gostaria, passo por isso e sei como é. O desafio está lançado: se encontre! Seja além da “mãezinha”, seja a mulher que você está lutando para ser e que sempre foi.

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Jo Melo, é mãe do Juan, pesquisadora e profissional de Marketing. Ativista pelos direitos das mães e contra a romantização da maternidade, luta por uma sociedade mais justa para mulheres e seus filhos, ama plantas, detesta julgamentos.
É fundadora da Revista Mães que Escrevem.

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