Quarentena leva a carga mental da maternidade para novas alturas

Estou convencida de que o cérebro de uma mãe é uma condição médica real da qual a maioria das mães que eu conheço sofre: ele não para um instante!  O nevoeiro em que vivemos, devido à pura exaustão causada pela pandemia de COVID-19, pode obscurecer nosso julgamento, nos fazer esquecer de nós mesmas e deixar-nos ansiosas para que chegue logo a hora de nossos filhos irem dormir, pois é quando podemos consumir Netflix e carboidratos. Penso que meu cérebro de mãe estava ruim antes da pandemia global, mas juro que é dez vezes pior agora que estamos de quarentena há praticamente dois meses. 

Qualquer que seja essa nova normalidade – que percebemos e de que tanto se fala – posso dizer que ela alterou minha capacidade de lembrar e executar os poucos planos que temos fora de casa. Muitas de nós estamos fora de nossa rotina. Antes tínhamos que nos dividir entre deixar os filhos na escola, ir para reuniões de trabalho, estar atenta às entregas e demandas relacionadas a nossa carreira e a família e ainda se policiar para que algum tempo para o autocuidado não fosse deixado de lado, afinal ninguém é de ferro!

Enfim, antes que o COVID-19 assumisse a existência de todos e todas, muitos pais estavam tão ocupados que não tinham tempo de deixar nada cair por entre os poucos espaços vazios de sua agenda diária. Fazer isso seria como derrubar o primeiro dominó e assistir a toda a fileira desabar. Isso claramente acontecia comigo e tenho certeza de que seu sentimento não é tão diferente do meu em relação a isso. Para aqueles de nós com uma família maior, tudo isso ainda era mais intenso.

Cada criança tem seu próprio horário e demandas. Agora que nossa situação mudou drasticamente, as mães, que geralmente carregam a maior parte da carga de trabalho, têm que reconfigurar tudo para todos. Estamos lidando com mais papéis do que nunca, inclusive sendo professores de ensino a distância de nossos filhos. Isso sem contar com o fato de ter que ajudar nossos filhos a manter a estabilidade mental e emocional em meio a uma crise total, na qual o mundo de nossas crianças foi revirado de cabeça para baixo. Algumas estão desesperadamente ansiosas por ver seus amigos e professores.

Você está em casa trabalhando, mas não tem sossego. É toda hora um: mãe, onde está meu boneco? Mãe, o Pedro não quer me deixar jogar; Mãe, acho que a internet não está funcionando, e não consigo terminar a tarefa da escola. Dá vontade de sair correndo, não dá? E se você acha que aquelas mães, que têm já adolescentes estão livres disso, está totalmente enganada. As demandas apenas se alteram. Muitas dessas mães estão tendo que ajudar seus filhos a lidar com um ano atípico para o vestibular, que provavelmente terão suas datas e talvez processos alterados. O que está sendo fonte de ansiedade para os adolescentes.

Além disso tudo, ainda temos nosso próprio trabalho para gerenciar. Não há tempo para as mães relaxarem e pensarem em paz. Podemos escrever algo ou acionar um alarme em nossos telefones, mas quando chegar a hora, não nos lembramos do que deveríamos estar fazendo. Toda essa experiência, me permite perceber – ainda mais claramente – que não sou apenas mãe, enfermeira, professora, terapeuta e esposa 24 horas por dia, sete dias por semana, mas que como pessoa também tenho tentado gerenciar minha própria ansiedade, que está diminuindo e fluindo normalmente. 

Muitas, muitas mães lutam contra a ansiedade ou a depressão, às vezes as duas, o que torna o isolamento social ainda mais desafiador. As coisas que geralmente nos ajudam, como aconselhamento, exercícios e pausas para o autocuidado, nem sempre são possíveis no momento, ou estão disponíveis apenas em doses muito pequenas e esporádicas.

Essa situação estranha, às vezes insuportável, deixa muitas mães frustradas e exaustas em meio a esse grande nevoeiro.  Nosso cérebro está sobrecarregado não só de nossas responsabilidades diárias, mas também de  todas as brigas e emoções que surgem constantemente por causa desse ser terrível que nem pode ser visto a olho nú: o coronavírus. 

Diante de toda essa situação é importante que você saiba que não está sozinha. Quase todas as mães com quem conversei estão exatamente no mesmo barco, lutando todos os dias e cruzando os dedos para que um dia possamos ter de volta aquilo que se encontra suspenso hoje. Até que isso aconteça, apenas precisamos fazer o nosso melhor e nos lembrar do que realmente importa: a saúde e segurança da nossa família.

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Monica Pessanha é psicanalista de crianças, adolescentes e mães, palestrante, coautora do livro EDUCANDO FILHOS PARA A VIDA e colunista na revista CRESCER. Mãe da Melissa, uma menina que ama ler. É o tipo de mãe que acredita que enquanto os filhos crescem, nós crescemos também.

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