Quando uma mãe perde um filho, todas perdem também. #MiguelPresente

Quando uma mãe perde um filho, todas perdem também. #MiguelPresente

 

Estamos vivendo momentos muito difíceis. A notícia da morte de Miguel Otávio de apenas 5 anos ganha as manchetes 3 dias após o acontecimento. O caso aconteceu em Recife e envolveu uma mulher branca privilegiada que, em meio a quarentena, ignorou totalmente as recomendações da OMS e manteve Mirtes, sua empregada doméstica, trabalhando normalmente.

 

Situações como essa em meio à pandemia são comuns, as empregadas domésticas são umas das primeiras a sofrerem com o descaso e negligência dos seus patrões que acham que elas têm de servi-los se expondo ao vírus sem ao menos pensar que essas mulheres têm família e também convivem com pessoas no grupo de risco dentro de casa e essa não é a primeira nem a última vez que essas mulheres são tratadas de forma negligente e racista por seus empregadores.

 

No dia do ocorrido, Mirtes levou seu filho para o trabalho e precisou sair para passear com o cachorro da família e a responsabilidade sobre o menino Miguel ficou nas mãos da sua patroa, essa que agiu de forma negligente deixando um menor de idade passear no elevador do prédio onde ela mora e onde Miguel foi visto pela última vez nas câmeras..

 

A mulher pagou fiança de R$20,000 e está respondendo por homicídio culposo (quando não há intenção de matar) e em liberdade, além disso, o rosto e o nome dela estão proibidos de circular até que o caso seja encerrado.

 

As palavras da mãe de Miguel refletem muito bem o entendimento sobre seu lugar nessa sociedade racista “Se fosse eu, meu rosto estaria estampado, como já vi vários casos na televisão (…) se fosse o contrário, não teria direito de fiança”.

 

Agora, nós te perguntamos, e esse caso tivesse acontecido com o filho da patroa? Estamos cansadas de ver todos os dias mortes de mulheres, homens e crianças pretas, de gritar para pararem de nos matar e não ser ouvidos, de pedir socorro e calarem nossas vozes com  mais mortes. Se fosse a Mirtes, ela estaria presa e passaria o resto dos seus dias lá, porque é assim que o sistema funciona, ele é racista e classista, a cor é o seu principal alvo e estamos fatigadas de falar que #vidasnegrasimportam enquanto tapam os ouvidos e nos matam ainda mais. Miguel morreu e é mais uma vítima do racismo que estrutura nosso país. Os filhos das patroas cuidados, mas quem cuida das crianças pretas e pobres?

 

É hora de pensar, mesmo consternadas, sobre nosso privilégio. De entendermos que nenhuma vivência é igual a outra, principalmente quando se trata de mulheres não brancas. Se mulheres brancas sofrem por conta da maternidade e gênero, nós carregamos o racismo nas costas e lutamos diariamente para sobreviver.

 

Não podemos pautar a luta por equidade de gênero sem fazer um recorte racial, sem entender e ter empatia, sem lutar junto, pois o papel das mulheres antirracistas deve ser esse, luta do lado, levantar, abraçar e tentar amenizar junto com a outra os impactos que todas as mulheres racializadas sofrem.

 

Aqui na Maternativa as pautas políticas vão ganhar espaço porque a mudança bate em nossa porta e nós precisamos ir na direção dela.

Imagem/Capa: Revista Time

 

 

Jo Melo, é mãe do Juan, pesquisadora e profissional de Marketing. Ativista pelos direitos das mães e contra a romantização da maternidade, luta por uma sociedade mais justa para mulheres e seus filhos, ama plantas, detesta julgamentos.
É fundadora da Revista Mães que Escrevem.

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