Precisamos falar sobre desigualdade racial e boas práticas antirracistas

Ser mulher numa sociedade machista é difícil, ser mãe é ter de lidar com a maternidade compulsória, agora imagine ser mulher, mãe e não branca?

Quando falamos de privilégio de cor, não estamos dizendo que somente mulheres racializadas sofrem neste mundo, não estamos falando somente sobre desigualdade social que está ligada à cor/etnia. Por mais que “seja difícil pra todo mundo”, é importante que tenhamos em mente que o privilégio racial existe.

Se você ficar frente a frente com uma mulher negra por exemplo e perguntar quantas vezes você foi seguida no mercado ou se sua mãe teve de te ensinar a sempre pegar a notinha do supermercado ou a não mexer em nada, já podemos concluir que racismo você não sofreu.

Quando estamos dentro da nossa bolha, acabamos levando apenas as experiências vividas por nós como verdade, mas quando saímos dela, o processo é doloroso demais, porque ver mulheres que além de sofrer machismo, sofrem racismo, não é fácil e acabamos querendo ajudar, mas sem saber como. Eu sei, é complicado.

No ambiente corporativo não é diferente, por mais que muitas empresas estejam interessadas em diversidade e equidade de gênero, poucas realmente buscam soluções antirracistas. Durante muito tempo o que a gente considera hoje como racista, era visto de forma engraçada pela sociedade. Nossa literatura, a dança, os móveis, as novelas todas baseadas no racismo estrutural e não deveria ser, já que o Brasil tem 55,8%  das pessoas são autodeclaradas pretas e pardas.

O número não é grande apenas em relação à autodeclaração, mas de desemprego também já que os negros representam os 75,2% das pessoas que recebem menos, se formos separar por gênero, mulheres negras recebem 44% que é menos da metade dos rendimentos em relação a homens brancos e apenas 29,9% delas estão em cargos gerenciais.

Quando falamos em população indígena, temos mais 800 mil indígenas divididos entre mais 305 etnias, em contexto urbano (indígenas que migram para a cidade), esse número chega a mais de 300 mil e em São Paulo, eles correspondem a mais de 12 mil. E por que que numa sociedade onde as minorias sociais são “maioria”, há tanta desigualdade? A resposta é: Racismo estrutural.

Racismo e suas sutilezas no ambiente de trabalho

O racismo às vezes aparece forma tão sutil e mascarado que só quem passa entende a situação, por isso, trouxe o caso da Thaísa, negra, mãe solo de uma adolescente que explica como o racismo velado foi um dos responsáveis pela sua depressão.

“Sou Thaísa Cipriano, tenho 34 anos, sou técnica em enfermagem e trabalho na área da saúde há mais de 11 anos. O que percebo é que a maioria das pessoas que ocupam este cargo são negras e acredito que isso tem muito a ver com racismo estrutural, pelo fato da profissão ser algo mais “braçal”, onde nós é que sustentamos a situação dentro de um hospital.

O maior tempo de experiência que tenho na enfermagem foi no SUS, há um tempo trabalhei numa empresa e, depois que passei a reconhecer meu lugar como mulher negra, comecei a falar sobre questões raciais no ambiente de trabalho e as outras pessoas brancas sempre tentavam podar meus discursos que nunca foram recebidos de bom grado. Depois de uma troca gestão, passei a sofrer perseguição da gestora que não gostava de como eu trazia o assunto, ela e outros funcionários diziam que eu era “exagerada”, “deslumbrada” pelo tema racismo, deslegitimando toda a minha fala como mulher negra.

Por conta dessas perseguições, por não ser ouvida e silenciada e também por questões pessoais acabei entrando em depressão, fiquei um mês afastada do trabalho, quando voltei, a mesma gestora começou a me perseguir de novo, procurando situações para me advertir até que eu fosse mandada embora por justa causa. Desde então, passei um mês passando por humilhações que não eram declaradamente racistas, mas quando se vive na pele, você consegue identificar, o racismo nunca é de fato declarado, mas se manifesta de formas sutis. Cheguei a conversar com a coordenação e levei todos os acontecimentos, apontei racismo,  e ela abafou a história então, por não suportar mais, pedi demissão, acabei não processando a empresa e me arrependo um pouco disso, mas estava tão fragilizada que não conseguia mais encarar aquela situação.”

Conhecendo a desigualdade racial em números

Segundo o IBGE, somente 10% das mulheres negras concluem ensino superior, não por falta de vontade, mas porque muitas vezes precisa trabalhar, sustentar a família e acabam “escolhendo” botar comida na mesa. Se essa for mãe, as chances podem ser muito menores.

Além disso, as mulheres trabalham muitas horas a mais que os homens, isso semanalmente, ou seja, enquanto elas dedicam 18 horas semanais a afazeres domésticos, homens cumprem apenas 10 horas (Dados: IBGE).

Se separarmos por cor/etnia, a mulher negra, com filhos pequenos, sem companheiro chega a 23,3%, pardas, 25,9% e mulheres brancas, 17,7%, a falta de rede de apoio aqui é clara, existem mais mãe solo racializadas que brancas.

Quando falamos sobre educação, 30,7% das meninas negras entre 15 e 17 anos estão em atraso nos estudos, enquanto mulheres brancas chega a 19,9%.

Além disso, 39,9% das mulheres negras estão submetidas a condições precárias de trabalho, seguido de homens negros, 31,6%, mulheres brancas 26,9 e homens brancos, 20,6%. (Dados: IBGE).

Das que sofrem assédio 68% são mulheres, neste número, 42% delas são negras. Segundo dados do Ministério da Saúde, quando o assunto é violência obstétrica, mulheres negras e indígenas lideram o ranking com 65,9%.

Boas práticas antirracistas em ambientes corporativos e autônomos

Existem muitas práticas eficazes que podem ser feitas entre empresas e todos os cidadãos, claro que todas as ações envolvem também a sociedade como um todo, é importante que, além da corporação adotar práticas antirracistas, é necessário que haja o reconhecimento de que racismo existe. Mas, como isso deve ser feito? Acredito que não é esse texto ou listas antirracistas que farão as pessoas reconhecerem seus privilégios de pronto, mas ouvir outras mulheres e conhecer suas vivências pode ser o principal caminho para essas práticas.

Por isso, é fundamental, além de ouvir usar do seu privilégio racial para abrir portas para outras mulheres. Pensando nisso, algumas questões devem ser levantadas: Na empresa onde você trabalha existe um setor dos direitos humanos? da diversidade? do antirracismo? Se não existe, que tal fazer essa proposta?

Caso você seja empreendedora, que tal abrir espaço para negras e indígenas serem contratadas? Como vimos, mulheres racializadas têm maiores dificuldades de encontrar emprego, ganham menos e estão em desvantagem quando o assunto é carteira assinada e condições trabalhistas. Não é a toa que existem as cotas raciais, elas são importantes para inserção de minorias que não tiveram as mesmas chances sociais por causa da cor/etnia e isso não é vitimismo.

Outro ponto importante é se educar sobre o assunto racismo. Leia, se informe, as mulheres negras e indígenas estão usando a mídia independente para falar sobre suas necessidades, vontades, medos e mostram como é ser preterida por causa da sua cor. Chame essas mulheres para reuniões, contrate-as para apresentar palestras, falar sobre sua cultura, dê protagonismo. A educação antirracista é importante, mas o mais importante é que ele saia da boca de quem sofre com ele.

Diante de todos esses dados, relatos e dicas, é importante que o nosso reconhecimento sobre eles seja real. Existe sim a violência de gênero, nós mulheres cis, no geral, já sofremos muito com isso, mas quando fazemos um recorte, podemos ver que, enquanto estamos lutando por espaços onde nossas vozes sejam ouvidas, mulheres negras e indígenas estão carregando todas essas mazelas há muitos séculos, além do racismo, lutam para que as terras que os seus ancestrais sofreram com escravidão, mortes, estupros seja retomada para elas por direito. Há muita luta por trás de tanto choro, seja empática, seja antirracista. Parafraseando Angela Davis: “não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”.

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Jo Melo, é mãe do Juan, pesquisadora e profissional de Marketing. Ativista pelos direitos das mães e contra a romantização da maternidade, luta por uma sociedade mais justa para mulheres e seus filhos, ama plantas, detesta julgamentos.
É fundadora da Revista Mães que Escrevem.

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