A maior crise sanitária mundial está impactando diretamente o trabalho remunerado das mães.

A maior crise sanitária mundial da nossa época está impactando o trabalho remunerado das mães e já traz indicativos de retrocessos na igualdade de gênero no mercado de trabalho.

A proteção à maternidade significa preservar a saúde da mãe e do recém-nascido e também garantir direitos que permitam que as mulheres combinem com sucesso seus papéis reprodutivos e produtivos evitando um tratamento desigual no trabalho devido seu papel reprodutivo.  Isso significa, colocar como prioridade a promoção e os princípios de igualdade de oportunidade e tratamento entre mulheres e homens.

As crises econômicas  ao longo do tempo são apontadas em inúmeros estudos como eventos que prejudicam e atrasam a evolução da igualdade de gênero no mundo. Ao que tudo indica, no caso da crise que estamos passando, não será diferente.

Embora muitos avanços tenham acontecido no últimos anos em relação as mulheres e o mercado de trabalho, frente a decisões econômicas, a igualdade de gênero acaba sendo tratada com pouca ou nenhuma prioridade mesmo quando estudos também apontam que a igualdade favorece tanto a economia como as relações sociais.

Sociedade, governos e empresas já sabem o quanto a pandemia do coronavírus alterou toda economia mundial. A retração dos mercados trouxe desafios de desemprego em todos os  países. Dados e pesquisas ao redor do mundo já destacam o impacto, especialmente negativo, na carreira das mães.

O estudo recente  de uma ONG britânica que escutou cerca de 20.000 mães revelou que mais de 80% delas precisaram que alguém cuidasse das crianças durante a quarentena para que conseguisse desempenhar todas as funções no trabalho e que apenas metade dessas mulheres tiveram condições financeiras ou suporte da família para cuidar dos filhos com o fechamento das creches e escolas.

Se em um país mais desenvolvido economicamente, com melhores índices de igualdade social e de igualdade de gênero os resultados demonstraram tamanho prejuízo no desempenho do trabalho de mães já podemos inferir que no Brasil são esperados resultados ainda mais devastadores.

O estudo ainda apontou que 72% das mães tiveram que reduzir a jornada de trabalho remunerado por causa do cuidado com as crianças. 15% foi demitida ou pediu demissão e 46% citou a falta de apoio para cuidar dos filhos como o principal motivo. 11% das mulheres grávidas foram despedidas ou acreditam que serão em breve. 74% das mulheres que trabalham por conta própria tiveram seu potencial de ganho reduzido devido à falta de apoio para cuidar das crianças.

Embora hoje, possamos afirmar que as mulheres compartilham com os homens o tempo de trabalho remunerado não ocorreu um processo equivalente de mudança com relação à redistribuição das responsabilidades sobre as tarefas domésticas.

A situação sócio-econômica brasileira permite que somente uma pequena parcela da população tenha recursos para investir na contratação de cuidadores pagos e sendo as mulheres as principais responsáveis pelo cuidado de crianças e idosos recai sobre elas uma sobrecarga que impacta seu trabalho produtivo.

Para evitar retrocessos é importante que as preocupações relacionadas a proteção à maternidade sejam levadas ainda mais a sério pela sociedade, pelo Estado e pela iniciativa privada nesse momento visando reduzir os impactos agora para no futuro poder se beneficiar de avanços sociais e econômicos advindos da igualdade. Sacrificar ganhos futuros visando apenas o agora é manter em funcionamento uma equação que ao longo do tempo tem tornado mais distante o dia em que veremos a igualdade de gênero em patamares melhores no mundo e principalmente no Brasil.

A Maternativa é a primeira e maior comunidade do Brasil que reúne mães discutindo sua relação com trabalho. Temos trabalhado desde o início da quarentena escutando as mulheres, estudando inúmeras pesquisas que relacionam a questão da maternidade com trabalho no mundo.

Através da escuta diária da nossa comunidade foi possível de forma rápida identificar os desafios e o impacto direto que a pandemia causou na rotina e no trabalho das mães.

Embora o governo tenha trabalhado na questão do auxílio emergencial, incluindo um valor maior para mulheres  chefes de família, é sabido que esse valor além de temporário é insuficiente para cobrir as despesas de crianças e adolescentes que deixaram de fazer suas refeições na escola e tapar os buracos causados pelo aumento de demissões e a perda de renda de milhares de mães pelo Brasil.

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